O camelo, o leão e a criança


Friedrich Nietzsche após sua morte em 1900 tornou-se o escritor e filósofo mais lido e debatido de todos os tempos, pois são inumeráveis os livros, teses de doutorados, seminários e grupos de estudos que buscam entender o seu pensamento, como também desconstruí-lo. Devido sua importância à filosofia, alguns estudiosos afirmam que a história da filosofia moderna divide-se entre: Antes de Nietzsche e Após Nietzsche.


Como leitor sou um entusiasta e admirador nietzschiano, no entanto, não conseguia entender o porquê de seu personagem Zaratustra depois de dez anos vivendo como um eremita, acompanhado apenas de uma águia e de uma serpente em uma montanha, resolveu descer até os homens, que dez anos antes haviam zombado dele.

Foi preciso além de inúmeras leituras do clássico “Assim falava Zaratustra”, adentrar na estrada que conduz aos cinquenta anos, para poder entender que nos dez anos em que viveu na montanha convivendo com a natureza e o divino, Zaratustra havia se transformado em uma criança. Sua taça estava transbordando sabedoria e encanto por ter despertado para a grandiosidade da vida, e como toda criança, Zaratustra não tinha mais a noção de propriedade, estava puro, sábio e feliz.

Não cabendo dentro de si por tanta felicidade, Zaratustra resolveu abandonar a montanha e descer até o povo para repartir com ele sua alegria e sabedoria, como fazem as crianças que se extasiam com o novo, com o belo e desejam compartilhar com quem esteja por perto, mas ao chegar ao povoado não foi compreendido, pois faltava inocência, desapego e amor entre as pessoas para compreendê-lo.

Zaratustra foi e é incompreendido até hoje, assim como são as crianças. Segundo Osho e Rubem Alves, Zaratustra era uma criança, porque já estava na terceira e última metamorfose pela qual passa o homem até atingir a completude do amor, segundo o próprio Nietzsche.

A primeira metamorfose é a do camelo, criatura passiva que não se nega a carregar pesos absurdos nas costas, assim como também é dependente, pois não tem noção de si mesmo, não conhece os próprios olhos, é aquele que vive em prol de outros para fugir de si mesmo.

A segunda metamorfose é a do leão, o homem que não aceita carregar peso de outros, pois tomou consciência de si mesmo e de seu potencial ante a vida, é o ser independente que não possui riquezas, mas tem dignidade. Por ter tomado conhecimento de si mesmo encontra-se empoderado, no entanto, esse poder é restrito a si mesmo, mesmo assim, quer sentir todos os cheiros e gostos ao mesmo tempo, enfim, quer conquistar o mundo, mas chega a um determinado ponto em que percebe que tudo que conquistou é banal, ilusório e que somente a alegria e a felicidade tem valor diante da vida, assim ele está pronto para o próximo passo.

A terceira e última metamorfose é a da criança, a inocência que não deseja paz e nem tranquilidade, mas movimento. É a criança que quer brincar, contemplar, se espantar com a vida, quer alegria, quer felicidade, pois isso é o alimento da alma, o resto é lodo, é água parada.  Dado a isso, uma criança jamais entende o significado das palavras aposentar, parar, estacionar, pois são irrequietas, talvez por a sabedoria que possuem apontar para a noção do quanto a vida é efêmera, fugaz e de que viver significa degustá-la até a sua última gota.

As metamorfoses nietzschianas não são uma regra, pois há pessoas que iniciam e terminam a vida como camelos e há também outras que ficam translumbradas consigo mesmas ao perceberem-se leões, mas aquele que reencontra a criança na maturidade, na velhice pode dizer que vale a pena viver, mesmo sabendo o quão perigoso é o caminho da vida.

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