A grande estação

Certa vez um garoto encontrava-se inconsolável por ter perdido sua avó materna, não entendia o porquê de sua avó ter partido, como toda criança ele possuía uma vaga noção sobre o morrer, noção baseada na morte de animais de estimação. O garoto não contendo sua inquietação e com toda inocência de uma criança de sete anos de idade perguntou a seu pai: o que é morrer? O que é a morte? Como estavam no carro da família esperando escoar um imenso comboio de vagões, o pai do garoto respondeu: “morrer é deixar de viver aqui para viver em outro mundo e a morte é um trem de passageiros que recolhe a alma das pessoas em uma cidade e as leva para um bom lugar, no qual descansam e curam seus males enquanto esperam os parentes que ficam, pois todos nós também morreremos, mas a morte é imprevisível e insensível, não avisa quem vai levar e muito menos se preocupa se o passageiro viveu pouco ou muito tempo.” Ao imaginar um trem cheio de almas indo para um bom lugar o garoto aceitou com tranquilidade a morte de sua avó.
Sem entender muito a morte, esse fenômeno natural rodeado de tabus, evitamos pensar que temos no futuro uma data reservada aos atos fúnebres de nosso próprio corpo. Ao refletir sobre a finitude – talvez como forma de aliviar o terror que representa para nós o próprio fim -, imagino que ao nascermos entramos em uma grande estação e nela aguardamos com resignação o expresso que sinaliza que nossa hora chegou.  Nessa estação como não possuímos bilhetes não nos é possível saber a hora, dia, mês e ano do embarque. Nossa partida pode ocorrer a qualquer momento, fato que torna nossa vida uma incógnita, algo totalmente imprevisível. Mesmo que nos doa e não admitamos em um primeiro momento, viver é antes de tudo uma espera silenciosa pela morte.
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Foto de Clem Onojeghuo no Unsplash
Durante essa espera que hora estamos mergulhados vamos esbarrando em contradições como a de afirmar que estamos vivendo, quando na verdade estamos morrendo e essa morte se inicia no nascimento, pois nesse importante instante da existência a ampulheta inicia seu processo de contagem regressiva. Talvez nosso choro ao respirarmos pela primeira vez denote toda a incerteza em relação ao próprio fim, indefinição que o ser humano carrega por toda vida.
Entre 365 dias de um ano, o que marca nosso nascimento é tido como especial, pois comemoramos nosso aniversário, no entanto, se refletirmos sobre isso perceberemos que comemoramos na verdade o encurtamento do tempo de espera pelo dia derradeiro, não fosse isso não assopraríamos velas para apagá-las, ou seja, a mensagem inconsciente de que apreciamos e desejamos o apagar das luzes da própria existência.
Particularmente acredito que viver é antes de tudo resignar-se por ignorar a data da própria partida. Embora vivamos em uma espera inconsciente pelo próprio fim, temos medo da morte, pois geramos em nós apreensão e angústia ante a tudo aquilo que desconhecemos, isto é, paira sobre nós uma determinada insegurança quanto a nossa própria vida. Acredito que no fundo não tememos a morte, mas assusta-nos as inúmeras formas em que a vida chega ao fim, entre elas o sofrimento. Ninguém quer sofrer em seus últimos dias, todos desejamos um desenlace tranquilo e sem traumas, mas somos impotentes, pois isso não depende apenas de nosso desejo.
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Foto de Hello Lightbulb no Unsplash
A vida pode ser compreendida como uma grande estação, na qual prontos para partir e alheios ao ano, dia e hora de embarque, perambulamos, trabalhamos, casamos e temos filhos como forma de passar o tempo, simplesmente por ignorarmos a data de nossa partida. Para a maioria de nós, o tempo de espera se faz tão longo, que nos afeiçoamos a esta grande estação, julgando-nos donos da mesma e a ignorar que ela pode ser apenas um ponto de transição entre outras tantas.
Se nos fosse dado a dádiva de saber de nossos dias e do próprio fim, talvez  viveríamos mais intensamente do que vivemos atualmente, pois a data de partida seria uma certeza pontual e não uma incógnita, se isso fosse possível, com certeza seria excluída dos dicionários a palavra adiar. Se pudéssemos ter conhecimento da data de nossa finitude, talvez pudéssemos viver em paz e harmonia uns com os outros, sem ganância, sem guerras e com mais humanidade, pois perceberíamos claramente que as coisas materiais são tão fúteis, que não conseguem embarcar conosco no expresso da morte.
Davi Roballo______________-

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