A vida pede passagem

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Entre as grandes ambições do ser humano está a de ter uma família perfeita e estruturalmente feliz, amparada numa condição financeira/profissional sólida, mas esse anseio esbarra no fato de que a felicidade opera sob a lei da proporcionalidade e não da plenitude. Se analisarmos com mais seriedade, veremos que a plenitude é o auge, o fim, por isso, obtemos nossa felicidade de forma fragmentada conforme nossos atos e atitudes, justamente por sermos seres incompletos, criaturas perfectíveis em busca de si mesmos.

Nessa busca, passamos por vários caminhos equilibrando-nos na linha tênue entre a vida e a morte. Muitos, ao perceberem que a vida não é o tão apregoado mundo de rosas, se descompensam ante suas agruras e assim perdem o leme da própria história. No desamparo, alguns tentam de todas as formas retomar comportamentos infantis e adolescentes vivendo perigosamente ao sabor do vento e da doce irresponsabilidade, porquanto a vida em determinado ponto exige disciplina e determinadas condutas inerentes à sociedade em que estamos inseridos.

Dos caminhos ásperos da vida se colhe muitas experiências, provações que ficam por conta do tempo que alguns relatam em seus escritos e/ou são relatadas por testemunhas oculares, mas muitos levam consigo para o frio da sepultura. Lembranças duras, cruéis e até mesmo surreais atormentam a mente daqueles que ainda não se reencontraram consigo mesmos, tomados pela dor da não aceitação daquilo que realmente são e não o que imaginam ser.

Muitos com o rosto do vitimismo continuam sentados à beira dos caminhos da vida, acomodados nos braços da inércia esperando que alguém faça o que é de suas responsabilidades, isto é, levantar e continuar a caminhada. A vida se apresenta como um desafio, como oportunidade de crescimento e não pode jamais ser desperdiçada, não se apresenta totalmente bela, mas nos fornece os subsídios para torná-la agradável e superável em conformidade com nossas atitudes ante a própria vida.

Não há como negar que já testemunhamos – e muitas vezes escondemos de nós mesmos -, a queda e o declínio de amigos e familiares que silenciosamente perderam o controle de si mesmos, entregando-se às torrentes da vida sem direção e sem rumo. Escondemos de nós essas experiências porque dói ter de enxergar com olhos de ver que aquele que perde o amor por si mesmo tende a ter dificuldades para conduzir os próprios passos pelos caminhos íngremes da vida, precisando muitas vezes de nossa compaixão, incentivo, força e coragem pra abandonar o abismo do desanimo e voltar a enfrentar de cabeça erguida os reveses da vida.

A vida é a melhor escola que temos, embora seja impiedosa e inclemente quanto as nossas escolhas. É a vida que nos possibilita aprender e a compreender que a existência é desafio que exige a aptidão de um equilibrista para percorrer a corda bamba do viver. Nessa ponte pênsil, se torna imprescindível equilibrar-se entre um sim e um não. É a existência que nos ensina: aquele que descura de si mesmo entrega-se totalmente à tirania da indiferença da vida. O nosso maior desafio nessa travessia é não desequilibrarmo-nos, evitando, assim, cair em direção a depressão, o abismo insondável e ainda pouco explorado do psiquismo humano.

A vida não é bela, mas atentamos, vejamos com mais afinco as oportunidades que a mesma nos oferece para modificá-la e torná-la bem melhor, mas isso depende de um anseio e força interior do próprio sujeito, que ante os desafios e as derrotas, mais do que tudo tem de ter a atenção de um vigia e a determinação de um soldado resoluto e convicto de que perder uma batalha, não significa perder a guerra.

A vida é um movimento contínuo, não estaciona para que possamos lamentar nossas dores, ela apenas nos oferece duas opções: acompanharmos os passos do tempo ou sentamos à beira de nosso próprio caminho para mendigar compaixão alheia. A vida simplesmente pede passagem, pois não possui tempo para cuidar daquilo que é de nossa inteira responsabilidade, isto é, a pavimentação das estradas de nossos sonhos e desejos.


© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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