O tríplice aspecto do sujeito social

 

De posse do livre pensar podemos deduzir que a fábula de Adão, Eva e a Serpente levada ao pé da letra não pode ser considerada como algo sério, mas no aspecto filosófico e psíquico podemos tirar dela o significado da queda e do fim do paraíso, que se trata da inocência ou a ausência do ego e não de um lugar circunscrito. É preciso levar a sério os símbolos nela apresentados. A maça sendo o conhecimento e a serpente a manifestação do ego. Adão e Eva perderam o paraíso porque passaram a conhecer e com isso a comparar, medir e a desejar cada vez mais iludidos pelo ego enraizado no inconsciente humano.

E bem provável que o ego ao assaltar o comportamento humano o dividiu em um tríplice aspecto na forma de agir nas interações com o outro. Dado a isso, a convivência seja no seio familiar, profissional e social tem ao longo do tempo nos impulsionado a representar no palco da vida, no qual a sinceridade estrita é algo incabível, visto que pode transformar-se em uma automutilação a respeito das interações, como também o declínio da vida social.

Nietzsche diz que “Nunca nos procuramos, como poderíamos ter nos encontrado (…)”, isto é, não nos conhecemos, tanto que diuturnamente agimos totalmente em contradição ao que realmente somos, com exceção dos lapsos inconscientes, as atitudes classificadas como “atos falhos” que segundo Freud apresentam fragmentos de nossa verdadeira personalidade. Trata-se nesse caso de saturação de nosso próprio inconsciente, que como um vulcão lança para fora todo excesso daquilo que se encontra sufocado, recalcado e censurado ante as regras sociais, tradicionais e culturais que delineiam nossa vida no seio social.

Para que a sociedade flua e estabeleça uma linha de estabilidade a respeito da convivência entre seus participes, ela se sujeitou ao tríplice aspecto psicológico de seus atores, ou seja: a) o espectro da idealização do que o sujeito imagina ser, que almeja e sonha encarnar; b) o reflexo do que a outra pessoa pensa que ele é, isto é, a impressão que causa no outro; c) e, por fim, a incógnita daquilo que realmente o sujeito é, ou seja, tudo o que ele desconhece ser, pois, vivemos conforme uma idealização, enquanto por debaixo do véu de nossa hipocrisia repousa nossa verdadeira face que muitas vezes nos assusta, principalmente quando resolvemos nos avaliar seriamente.

Desde que o ego coordena nossos passos a vida vem se estabelecendo em um jogo que nos obriga viver na defensiva em relação ao outro, e assim, entrincheirados vamos protegendo nossas faces, máscaras, como também  tudo aquilo que não conhecemos em nós mesmos, e por tudo isso tememos um provável demérito, pois uma incursão mais ofensiva pode quebrar a vidraça que nos protege do outro e de nós mesmos.

 

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Nas palavras de José Saramago em o conto – Ilha desconhecida –  “É necessário sair da ilha para ver a ilha”, isto é, para nos vermos é preciso olhar-nos como se fossemos um estranho. No entanto, fazendo isso, iremos esbarrar em alguém desconhecido, a outra parte que constantemente negamos a nós mesmos, parte de nossa personalidade que é exilada nas profundezas de nossa inconsciência, algo que vez por outra, como dito in supra, emerge em nossos atos falhos.

Para o místico indiano Osho “Tudo o que sabemos sobre nós mesmos é a opinião dos outros.” Isso acontece porque o outro nos vê de uma forma pela qual não conseguimos nos ver, no entanto, o outro nos julga pela casca em detrimento ao conteúdo por debaixo dela.

Eis o mundo comandado pelo ego, a vida  pautada pelas aparências e pelo faz de conta em que estamos inseridos, pois nos é  mais cômodo fugir de nós mesmos do que enfrentar a realidade daquilo que realmente somos, porquanto o processo de autoconhecimento é dolorido e vagaroso, tanto que se consolida de fato em apenas alguns sujeitos na maturidade e na velhice, quando atingem a plenitude da gratidão pela vida e a compaixão pelo outro ao sufocar o próprio ego.

Texto de Davi Roballo

Jornalista, Poeta, Escritor, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político

 

 

 

 

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