A opinião alheia e o direito de ser feliz

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Nessas conversas cotidianas em que contamos nossas aventuras e presepadas do passado, ouvi de meu amigo Fabiano um caso bem interessante. Disse ele que determinado domingo do ano de 1979, sua mãe o vestiu e penteou seu cabelo com gel e ordenou que aguardasse quieto ela banhar-se e vestir-se para irem então ao circo.

Tudo estava transcorrendo muito bem, meu amigo estava sentado no degrau da porta de entrada de sua casa observando o movimento quando cruzou um de seus desafetos e o chamou de leitãozinho, foi questão de segundos e os dois estavam rolando pela terra entre sopapos e pontapés. Seu desafeto depois de apanhar se pôs em fuga e ele com os joelhos ralados, roupa empoeirada e o penteado desfeito voltou a sentar-se na escadaria da casa.

Poucos minutos pós sentar ouviu o apito de um sorveteiro que estava vindo por sua rua. Como ele adorava picolés correu para dentro de casa pedir dinheiro à sua mãe, que de imediato o repreendeu dizendo que o mesmo não estaria em condições de obter agrados, muito menos recompensas, porquanto ela havia confiado que ele se comportaria pacientemente até que estivesse pronta para então irem ao Circo, algo que não ocorreu devido às circunstancias.

Segundo Fabiano, se naquele domingo ele e sua mãe tivessem ido ao Circo, talvez não fosse tão inesquecível como foi o sermão de praticamente quatro horas que dona Edith fez para que ele entendesse que a opinião alheia pouco importa e que ele deveria aceitar-se como ele realmente era e não despendesse seu tempo se defendendo ou tentando ser o que os outros esperavam que ele fosse.

americanas.pngNossa vida desde que se expandiu para além de nosso lar, perdeu a privacidade e ganhou um aspecto público, algo invisível parece nos forçar a exibi-la em uma vitrine a competir com a vida de outros.  Impulsionados pelos modismos e pela opinião alheia, estamos dançando a ciranda dos destituídos de si mesmos, porquanto estamos vivendo conforme outros desejam, pois perdemos o direito de opinar sobre nossa própria vida, e, assim, acabamos esquecendo que somos constituídos de diferentes gostos, diferentes histórias e etc., e que temos o direito de ser feliz da forma que somos.

Fabiano tornou-se um excelente corretor de seguros, continua acima do peso, pois gosta de comer e desde que sua mãe teve com ele aquela conversa, tratou de viver como acha melhor, correndo todos os riscos advindos disso, desfrutando muito bem dos prazeres oriundos de um bom prato acompanhado de um bom vinho. Ele não faz dieta, não é fitness, mas paga seus impostos e contas em dia. Morro de inveja de meu amigo Fabiano, pois a opinião alheia a respeito dele e de seus hábitos não lhe atingem.

Quantos sonhos e projetos nos escapam ou simplesmente deixamos de lado, simplesmente por a opinião alheia nos apontar seu dedo. Isso ocorre porque ao nos defrontarmos com uma decisão não costumamos olhar para o nosso interior, para ver se aquilo que depende de uma resposta nos fará bem, mas olhamos para fora de nós e imaginamos a reação da multidão que nos rodeia, e dependendo do barulho retrocedemos, nos sacrificando em prol da opinião pública.

Testemunhando o modo de viver e seus hábitos nada normais em relação a opinião de outros, acredito que Fabiano não foi totalmente destituído dele mesmo, porquanto faz o que gosta e o que deseja dentro dos limites do bom senso. Mas será que nós estamos preparados para afrontar a opinião alheia e seguir a vida tranquilamente? Creio que poucos conseguem se estabelecer no limiar em que se estabeleceu meu amigo. Um limiar entre aquilo que sou e aquilo que a opinião pública quer que eu seja, na verdade, Fabiano refugiou-se na neutralidade dessa fronteira…


Davi Roballo (2)

Davi Roballo

Jornalista, Poeta, Escritor / Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político

 


 

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