A cultura do corpo e o vazio existencial atual

Uma das interpretações da doutrina inacabada do “Eterno Retorno” de Nietzsche refere-se à questão de na vida tudo voltar a se repetir infinitas vezes. O que vemos atualmente é uma corrida ensandecida em busca de um corpo perfeito, seja através de exercícios físicos e dietas alimentares, quanto de cirurgias plásticas.

A cultura do corpo já perpassou por várias civilizações e hoje podemos vê-la retornando de forma diferente em relação aos povos que nos antecederam, carrega em si não mais uma idealização, mas um sinal de alerta na escuridão do vazio existencial, anunciando que estamos perdendo o leme da própria identidade.

Antigos gregos veneravam o corpo, pois acreditavam que o homem deveria aspirar a beleza na dicotomia virtude e perfeição física, pois a beleza era considerada um presente dos deuses do Olímpo.  O corpo para os gregos era um templo da virtude e por isso, não poderia ser imperfeito, mesmo com o avançar da idade, o corpo e o intelecto tinham seu valor, embora o corpo feminino fosse considerado inferior ao masculino, pois, a mulher era vista como uma matriz procriadora.

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Na cultura romana, o corpo deveria estar preparado para a lide bélica e para o prazer, posteriormente, com o advento do cristianismo o corpo passa de expressão da beleza e da força para fonte de perversidade, ou seja, passa a ser “proibido”. O corpo no cristianismo surgiu embalado em uma contradição, pois para o Papa Gregório Magno (590-604) o “corpo é a abominável vestimenta da alma”, no entanto, por outro lado, foi e é venerado através do corpo sofredor de Cristo.

Corpos gordos já foram considerados sinônimos de saúde e beleza, para confirmar isso podemos recorrer a arte; como também trejeitos e maquiagens femininas já foram usadas por homens num passado muito recente na velha Europa.

Atualmente, ao que parece, a cultura do corpo tem consigo o narcisismo de massa, que deixa a escolha individual impotente, sem sentido diante das exigências e padrões ditados pela indústria cultural. Existe uma pressão e uma ordem velada para sermos e nos comportarmos conforme a homogeneização estabelecida, contrariando a unicidade que somos, segundo Focault.

Estamos tão vazios interiormente que precisamos nos arranjar exteriormente para marcar nosso lugar no mundo e sermos ao menos percebidos. Perdemos o contato com o que somos há muito. Desde a Revolução Industrial, temos sacrificado o tempo de nossa vida buscando tudo àquilo que não precisamos, ou seja, estamos escravizados pelo supérfluo.

Perdemo-nos numa concepção insípida de que devemos trabalhar exacerbadamente para termos uma vida melhor, sem perceber que a própria vida escorre por entre nossos dedos. A cada dia nos afastamos daquilo que realmente somos, ou seja, seres sociáveis que devem ter distribuído o seu tempo entre suas reais necessidades, principalmente as afetivas, como também em busca do autoconhecimento e da renovação emocional\espiritual.

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A industrialização nos feriu gravemente e a vida moderna com suas tecnologias está aos poucos nos dando o golpe de misericórdia. Estamos debilitados em relação ao controle de nossa própria vida há muito, pois, o que achamos sermos não passa de um espectro que sufoca o “Ser” para poder “Ter” e faz de tudo para “Aparecer”, pois o narcisismo precisa de plateia.

Sem o Ser, o indivíduo perde a graça de ser ele mesmo, e uma vez sem identidade, some no meio da massa, por isso, esse fantasma subjetivo que há dentro de nós se fortalece sufocando o Ser, no entanto, para aparecer ele tem de se arranjar na estética concreta, o que faz recorrendo à cultura do corpo.

Atualmente estamos nos agarrando cada vez mais ao corpo, estamos desaprendendo a morrer agindo como se fôssemos eternos, mergulhados nas idealizações fantasiosas, que cedo ou tarde nos jogam no abismo da depressão e ansiedades decorrentes de nossa impotência diante da vida e do tempo. É preciso, pois, nesses tempos turbulentos, lembrarmos que estamos de passagem e o corpo não nos pertence.

 ©  Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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