O arquipélago de ilhas humanas

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Dependência tecnológica 

Na minha infância quando era comum jogar futebol na rua com os amigos e perder parte da ponta do dedão do pé ao chutar o chão junto com a bola, jamais pensei que algum dia fosse fazer amigos com ausência de presença, ou seja, virtuais.

Há bastante tempo a algazarra dos fins de tarde e dos fins de semana embalada pelo burburinho de gritos de crianças sumiu das ruas, condomínios e praças públicas. Os pais não são mais encontrados conversando com os vizinhos na calçada, cortando a grama, lavando o carro, pois, junto com os filhos estão de olhos fixos das telas de smartphones e laptops. O silêncio dos solitários acompanhados predomina nos casarões e nos casebres, — visto que a tecnologia e a vaidade não possuem preconceito.

Tenho vários amigos em várias partes do mundo e sinto-me conectado com eles como se estivessem em uma mesma sala, embora isso seja apenas uma ilusão virtual, pois, na realidade já pressinto a mesma angústia que vem assaltando silenciosamente as pessoas envoltas no mundo moderno das interações virtuais, isto é, parece que quanto mais interações sociais fazemos, mais sozinhos ficamos.

As casas, os lares se transformaram ao longo dos anos em grandes arquipélagos formados por ilhas humanas, pessoas trancadas em si mesmas, isoladas da afetividade das demais das suas convivências, criaturas que estão paulatinamente perdendo as suas habilidades de interações sociais in loco pelas não presenciais, sem calor e sem afeto.

 

Esse tipo de isolamento não se restringe apenas aos lares, mas a todo o ambiente frequentado por pessoas, até mesmo nos meios de transporte como ônibus de passageiros, trens, locais em que se pode observar sorrisos solitários, expressões de espanto, surpresa, alegria e raiva provocadas por pequenas telas.

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Zumbis virtuais

Esse fenômeno ocorre porque na vida virtual é mais fácil conviver com o outro, bem como descartá-lo quando não corresponder às expectativas depositadas nele, já na vida real, aquela que deve ser vivida com quem divide o mesmo espaço e tem a própria personalidade sem maquinações e proteção de telas, a realidade é bem diferente, pois, exige responsabilidade ante os atos e consequências resultantes desse convívio.

As redes sociais tornaram-se os grandes oceanos que interligam esses arquipélagos e ilhas humanas, por isso se tornou comum jogar nas redes as confissões individuais como se jogasse lixo no mar como alguns insensatos jogam, pois, no mundo virtual já não se sabe mais o que é público e o que é privado.

A busca pelo status nos ludibriou de que a informação, a tecnologia e a conexão representam significativamente poder ante o outro, nos tornando mais interessante e chamativo no mundo em que prevalece a cultura dos rótulos, no entanto, não percebemos que ao pensarmos usar a tecnologia e os meios, são eles que nos usam, pois, segundo Zygmunt Bauman:

“Quem detém o celular como símbolo de poder está declarando ao mundo inteiro sua condição desesperada como subordinado”.

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Zygmunt Bauman

É notório que as redes sociais e as novas tecnologias possuem suas vantagens quando bem administradas, principalmente ao não ultrapassar os limites da vida real composta pela família, amigos e todas as atividades que podem ser prejudicadas pelo seu mau uso, isto é: existe vida além dos smartphones, tablets, computadores e outros aparatos tecnológicos.

Temos de admitir que atualmente é quase impossível viver sem as redes sociais, visto que as mesmas espargem informações de forma muito rápida, como também nos interligam aos nossos entes. Além do mais, diariamente surgem novos equipamentos que transformam a rotina de crianças, jovens, adultos e também dos idosos, que descobriram a internet como um meio de terem mais atividades e se comunicarem com seus familiares que moram em lugares distantes.

Isolar-se no mundo virtual é construir ilhas e consequentemente os arquipélagos de humanos que mesmos acompanhados pela presença de outros humanos vivem como se estivessem na ausência dos mesmos. Ante todas as desvantagens dos meios virtuais cabe a cada usuário a consciência de que vida real é maior e a única que existe.

© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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