Os passos de nossa vida prosseguem conforme nossas escolhas e opções…

botina.jpg

O sol já mergulhava em despedida no poente, deixando seu rastro dourado nas águas crespas e claras do mar carioca. Logo no porto, um tumulto há alguns minutos constituídos por uma multidão atônita em volta de um defunto maltrapilho, com linhas de desprezo e descaso marcados no sofrido semblante. Em volta daquele cadáver, curiosos em busca de resolver as incógnitas: Quem era? Como morreu? Como viveu? Por que possuía sulcos tão graves em seu rosto?

Seu nome era Manoel Joaquim Gulliver, 62 anos de idade, filho de portugueses que haviam chegado ao Brasil em 1808, com quatro filhos, sendo ele o primogênito que na época tinha a idade de 12 anos. Desde que havia chegado ao Brasil revezava-se com seus irmãos no comércio de víveres, que a família manteve por dez anos nas proximidades do porto. Em 1822, Gulliver, afastado de sua casa motivado por viagem de compras para o estoque do comércio familiar, escapou da chacina por qual passou sua família, vitimada por um latrocínio. Desde então, desconsolado pela perda material e afetiva, mergulhou definitivamente na bebida, posteriormente optando pela mendicância.

Aos 25 anos, estava a mendigar na orla do porto, tinha como ponto fixo uma grande pedra lisa, onde ficava o dia inteiro sentado recebendo migalhas de pão e esmolas ofertados pelos viandantes que por ali passavam apiedando-se daquele espectro da desilusão. Por 37 anos esteve ali, a esvair sua força e juventude, que lhe subjugavam dia a dia, impondo-se de forma tirana e sarcástica sob a fragilidade de sua forma humana, vulnerável ao tempo.

Seus momentos eram dedicados a lamentar a miséria em que vivia, por instantes muitas vezes amaldiçoava Deus, pelo destino cruel a que estava sujeitado, não se dizendo merecedor de tamanho sofrimento. Lamentava mais ainda a miserável situação financeira em que vivia, invejando todos que via com família, com posses e poses.

Pobre Gulliver! Não imaginou que com sua morte haveria de deixar muitas coisas para avaliação e reflexão a outros humanos.

Descoberta sua história e identidade, resolveram lhe prestar os funerais, todos foram de comum acordo que Gulliver deveria receber uma sepultura decente e digna, porém, ninguém quis fazê-lo. “Oh! raça humana! Mais fala do que age”, exclamou Martin, um outro mendigo que vivia nas cercanias portuárias, ao ouvir o montante de desculpas que as pessoas haviam dito, para se livrar da responsabilidade de enterrar Gulliver, por preguiça e principalmente pelo gasto que haveria, mesmo que insignificante. Martin, num ato de caridade e manifesto de afeto pelo antigo companheiro de infortúnio, resolveu enterrá-lo, como não dispunha de dinheiro para executar o feito, optou em enterrar Gulliver debaixo da pedra a qual passou seus últimos 37 anos a mendigar. Convenceu mais três mendigos para realizar o empreendimento.

Quando começavam a cavar, não imaginavam aquelas criaturas, filhos da exclusão, que debaixo daquele pedaço de granito iriam encontrar um tesouro imensurável, composto de pérolas, rubis, diamantes, ouro, etc. Quando bateram a lâmina em algo rígido, pelo som identificaram que se tratava de metal e ao procurar desenterrá-lo depararam-se com um grande baú de bronze.

Ao abrirem aquela caixa, a primeira exclamação foi de Martin, “Meu Deus! Tudo isso, e Gulliver, sentado em cima por 37 anos”. Tinham encontrado um erário, que havia sido enterrado por corsários franceses em 1625.

Quantos Gullivers encontramos no decorrer de nosso caminho? Quantas vezes estamos a vivê-lo em nossa própria realidade? Gulliver é a expressão pura da desilusão, da cegueira interior, da falta de esperança, de confiança, de autoestima.

Vivemos tendo tudo e, ao mesmo tempo nada, simplesmente por colocarmos o nosso ego acima de um patamar a que merecemos. Interpretamos fielmente o personagem Gulliver, quando procuramos somente usufruir os benefícios, sem encarar as lições proporcionadas pela experiência nos embates quotidianos. Reclamamos, reivindicamos, mas pouco, muito pouco, olhamos para nossa própria essência, no exercício de aceitarmos numa autoavaliação, o fato de como realmente somos.

Um dos bens mais preciosos que trouxemos junto a nós, e que forma juntamente com outros a força desconhecida que há em nosso interior, e que como Gulliver ignoramos, é o equilíbrio. Porém, não basta encontrá-lo é imprescindível conquistá-lo, forjando-o nas lutas do dia a dia. Temos inúmeras riquezas no interior de nosso ser e não as encontramos por ainda não compreendermos que a vida é uma constante luta que se inicia quando adentramos nela e somente finda quando dela sairmos.

É preciso discernimento para aceitar que a vida ocorre entre o fragor de uma batalha seguida de um pequeno intervalo até adentrarmos noutra, isto é, estamos sempre em guerras, conosco, com os desafios, que nos favorecem a experiência e o amadurecimento, quando enfrentados frente a frente. Nossas escolhas são duas: ou lutamos, ou através do livre arbítrio podemos optar pela estagnação, como fez Gulliver, a esvair suas forças na inação escravizando-se na inércia, passando apenas a existir, ignorando a vida por temer seus desafios e nós mesmos.

Coragem não basta para enfrentarmos a vida, é necessário anexar a ela disciplina na conduta de como percorrê-la. Afinal, tudo é uma questão de opção. Porém, nossa vivência é como uma orquestra, ou seja, necessita de maestria.


© Texto com Todos os direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.