Não tentes carregar o mundo em tuas costas

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Na Mitologia Grega posteriormente a Titanomaquia ou a guerra dos Titãs pelo domínio do Universo, Zeus e seus aliados sagraram-se vencedores confinando no Tártaro (inferno) os deuses rebeldes, submetendo-os a castigos eternos, mas como Atlas queria moldar o mundo a sua maneira, foi condenado a carregá-lo em suas costas. Atlas desejava ser o centro do Universo, sem ser grande o suficiente para isso, o que prova sua derrota ante o todo-poderoso Zeus.

O mito de Atlas deixa a sublime lição de que devemos ter a lucidez de não desejar assumir ou se comprometer com aquilo que não daremos conta, visto que Atlas desejava ter o Mundo e o teve preso nas costas, ficando praticamente imobilizado, sem nada poder fazer. Assim se comportam as pessoas que desejam viver a vida de outras ao mesmo tempo em que a sua, assumindo obrigações que não darão conta de resolver.

A modernidade tem exigido tanto do ser humano, que em busca de um melhor desempenho laboral e com isso um maior ganho, entrou em um jogo competitivo, no qual aquele que não se atualiza constantemente corre o sério risco de perder seu posto para alguém mais atualizado e integrado.

Essa busca constante por aprimoramento alinhado com uma ambição desmedida e irracional, tem criado uma multidão de gente mal-humorada, apressada, que está adoecendo sem perceber, a esse fenômeno o médico Alex Botsaris deu o nome de “Complexo de Atlas”. Em um livro que leva como título o assunto em questão, o autor relata sua experiência pessoal com o estresse e seus efeitos no corpo e na alma.

Como de costume, sou levado a ver a questão por outro ângulo, mais para o lado do inconsciente, algo que paira mais distante de nossos olhos, mas próximo das questões intrínsecas de nossa alma. Baseado nisso, acredito que quem muito trabalha não está disposto a ter tempo para si mesmo, isto é, é um fugitivo inconsciente, que ao invés de reconciliar-se com suas eventuais falhas, prefere autopunir-se, prejulgando-se antecipadamente ao violentar-se com uma sobrecarga de afazeres dos quais não dará conta, mas justificará muitas vezes um conceito que traz de si mesmo, como, por exemplo: o de ser incapaz.

A autossabotagem também entra no contexto do “Complexo de Atlas”, uma vez que o sujeito faz de tudo para se desgraçar, por julgar-se não merecedor de benesses ou dádivas provenientes da vida e de seu trabalho. Quanto a modernidade e sua exigência atual por um aperfeiçoamento intelecto profissional, logicamente agravou esse quadro, fazendo surgir o coitadismo e o vitimismo daqueles que se sobrecarregam em prol de outros para fugirem de si mesmos. Trata-se de uma problemática complexa, uma vez que as causas desse fenômeno repousam nos meandros profundos do inconsciente e geralmente tem sua gênese em uma conturbada infância, base de toda a formação psíquica do sujeito como ser.

Inúmeros são os caminhos e atalhos para abandonar esse torvelinho de autopunição e autossabotagem. Um importante e eficaz meio é procurar um profissional como o psicólogo e através de terapias encontrar-se e reconciliar-se consigo mesmo, aceitando as próprias falhas com a graça de um inventor que erra inúmeras vezes até obter o êxito de seu invento e não com a hostilidade de uma criança birrenta que não aceita que lhe imponham limites.

É preciso além de tudo, ter a consciência de que o ser humano é um aprendiz que trilha caminhos desconhecidos e não um mestre forjado sem o calor das experiências. Além do mais, não somos perfeitos, todos nós trazemos lacunas na alma, sejam elas causadas por traumas, falta de atenção ou de amor em determinada fase de nossa vida, mas isso não deve nos impedir de caminhar em direção ao autoaperfeiçoamento com a convicção de que inúmeros serão nossos tombos e recomeços, cientes de que não podemos exigir tanto de nós mesmos, pois, só assim, não sobrecarregaremos nossos ombros.


© Texto com Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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