A inveja, uma doença da alma

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Aquele que navega pelas águas da inveja, ainda não percebeu ser único, por isso deseja, na verdade, ser o outro, a quem tanto admira, pois, o invejoso não respeita a si mesmo, muito menos possui conhecimento sobre sua unicidade: o milagre de ser ele mesmo. Como seres predominantes na Terra, chegamos ao século XXI a um total de 40 bilhões de indivíduos, somando os existentes e os que existiram em toda história da humanidade. Desse montante é impossível haverem existido dois humanos iguais.

Do ponto de vista biológico, somos únicos, prova disso é nossa voz, as digitais e a íris de nossos olhos. Mesmo assim, em algumas pessoas existe uma vontade latente de terem para si a vida de outras e até mesmo projetarem suas frustrações nelas. Aqui deparamo-nos com uma das maiores doenças que atingem nossa alma, a inveja.

A inveja é histórica e perturba-nos a milhares de anos. Foi ela que levou Sócrates a beber cicuta, por sua maiêutica ter despertado os jovens atenienses para o livre pensar, tornando-os criadores do próprio pensar, o que irou os que não aceitavam serem contrariados. Foi essa mesma inveja que levou Alexandre “O Grande” à morte, envenenado por ser inadmissível alguém tão jovem e audacioso ter construído um império da magnitude como foi o construído por ele.

Na mitologia grega, Dédalo, pai de Ícaro, brilhante arquiteto e artista de Atenas, era famoso por suas obras. Eram tantas as encomendas de palácios, edifícios e esculturas que ele teve de contratar seu sobrinho Talo — filho de Policasta —, como aprendiz. Com o tempo, Talo revelou-se um exímio inventor e construtor, obtendo fama por toda Grécia, ofuscando o talento e a preferência de seu tio. Dédalo, não suportou alguém tão jovem superá-lo em criatividade e beleza final nas construções e esculturas. Após um minucioso plano, assassinou o sobrinho que havia brilhado mais do que ele.

Os antigos gregos utilizavam os mitos para interpretar o mundo e as relações sociais a que estamos sujeitados na sociedade organizada. Na atualidade, como em tempos idos, quem possui status e poder dificilmente gosta de ser contrariado e/ou ultrapassado pelo brilho de um aprendiz e/ou subordinado. Talos morreu por ser talentoso e ter andado de mãos dadas com o sucesso.

A morte de Talos representa de forma alegórica a inveja e suas mais sérias consequências. Dédalo não suportou a inveja nascente de sua impotência ao ver seu sucesso e fama transferindo-se para o sobrinho. Isso ocorreu porque ver o sucesso que almejamos concretizar-se em pessoas mais talentosas que nós, atordoa-nos, inquieta-nos e leva-nos as mais insanas atitudes.

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Nietzsche¹ diz que a inveja uma é chaga intrínseca que sangra diuturnamente no peito do invejoso. Alguns conseguem conviver com a dor provocada por esse vazio e impotência que toma conta do ser quanto encontra outro com talento e qualidades capazes de obstruir o seu brilho, mas a grande maioria não consegue admitir que isso ocorra, e então age como Dédalo e tenta de todas as formas tirar do seu caminho aqueles que o ameaçam e/ou ofusquem seu brilho. Nasce, assim, a coação e o assédio moral nas empresas e instituições, e muitas vezes podem culminar em atrocidades.

Schopenhauer² em seu livro “Parerga e Paralipômena”, diz que não há consolo para a inveja a respeito das dádivas inatas como a inteligência, a beleza das mulheres e o espírito para os homens, assim sendo, nada mais resta ao invejoso além de odiar os privilegiados. Segundo esse filosofo alemão,

não há vício de que um homem pode ser culpado, nenhuma maldade, nenhuma baixeza, nenhuma indelicadeza que excita tanta indignação entre seus contemporâneos, amigos, vizinhos, como o sucesso.

A inveja simplesmente nos faz ver o sucesso do outro como um crime imperdoável, visto que o nosso ego se revolve na própria frustração de ter de testemunhar alguém brilhando mais que seu dominado, ou seja, brilhando mais que nós mesmos.

  1. Nietzsche, F.W. “Além do Bem e do Mal”, Editora Escala, São Paulo, 2005.
  2. SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e Paralipômena In Coletânea de textos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

DR Pequeno
© Texto com Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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