As janelas partidas e a vida estilhaçada

Foto de R Mo no Unsplash
Foto de R Mo no Unsplash

A vida, esta abstração que pouco entendemos, tem um princípio e um fim, — ao menos ao que diz respeito a animação biológica do corpo. E esse curto período do existir ocorre dentro de um limite envidraçado e único, ou seja, nossa intimidade, o conglomerado de experiências alheias que nos fazem ser o que somos.

Não fosse essa redoma particular e única de sentimentos, vontades e representações que fazem acontecer nossa vida, não nos chocaríamos tanto com a opinião e o direito de liberdade do outro.

Vivemos conforme disse Guimarães Rosa, nos rasgando e nos remendando.

Remendamo-nos justamente porque ao não costurarmos direito nossos rasgos, eles tendem a se tornarem maiores. Acredito que nos rasgamos movidos por um ato de despeito, um tipo de birra infantil, que ainda resta em nós, principalmente quando nos sentimos impotentes ao não podermos impedir que as coisas que devem ser mudadas, mudem, ou seja, aquilo que independe de nossa vontade. Existe também a opinião do outro, principalmente quando vem investida de razão, o que trinca a redoma de vidro que há em torno de nós, visto que, se choca diretamente com o nosso ego.

Para contextualizar o assunto aqui debatido recorro a uma experiência ocorrida no ano de 1969. Philip Zimbardo, psicólogo da Universidade de Stanford realizou uma experiência para apurar entre outros aspectos os motivos do delito. A experiência se baseou em abandonar e observar dois carros em bairros de diferentes classes sociais. O primeiro carro foi abandonado no bairro Broncx de Nova York, local pobre e com alto índice de violência. O segundo carro foi deixado em Palo Alto, região rica e tranquila da Califórnia. O automóvel deixado no Boncx foi depenado em poucas horas e o de Palo Alto depois de uma semana manteve-se intacto.

Como o carro de Palo Alto não havia sido violado, os pesquisadores resolveram quebrar uma de suas janelas e o mesmo foi totalmente depenado na mesma proporção do vandalismo visto no Broncx. Segundo os autores da pesquisa, a janela quebrada deu a ideia de abandono, desinteresse e cada item saqueado do carro reforçava a ideia de que o objeto não possuía proprietário e que o delito estava permitido.

Foto de Ishan Gupta no Unsplash
Foto de Ishan Gupta no Unsplash

No ano de 1982, os criminalistas James Q. Wilson e George Keling publicaram a “Teoria das janelas quebradas”, afirmando que a criminalidade é maior nas regiões em que a falta de manutenção, o descuido e o maltrato são maiores. Segundo a teoria uma janela quebrada abre caminho para outra também ser quebrada em atos contínuos, desencadeando em pouco tempo uma desordem incontrolável. Para evitar a desordem social e o caos é preciso consertar imediatamente a falha, o dano e o problema logo que surgem, impedindo que desencadeie o descontrole social e com isso a violência sem controle.

A “Teoria das janelas quebradas” aplica-se também a nossa vida e aos nossos descuidos e suas consequências. O agravamento exponencial de uma situação pode começar naquele minúsculo problema que vamos postergando até que se torna incontrolável.

A nossa convivência com o outro necessita e depende do conserto dos danos decorrentes dos choques provenientes dessa relação, pois, não somos iguais, temos opiniões e gostos diferentes. Entendendo isso é preciso trocar nossas janelas quebradas para que não se acumulem e estilhacem de vez nossa vida.

Bom seria se desenvolvêssemos uma forma de nos manter invioláveis, totalmente seguros, mas isso se torna impossível devido a nossa capacidade perfectível, isto é, estamos sempre nos aperfeiçoando, pois, não somos criaturas completas. Cabe a nós neste contexto buscar reconhecer nossas falhas e primar por consertar constantemente nossas rachaduras, trincas e janelas partidas, além do mais, uma pessoa fragilizada é vítima fácil de outras mal-intencionadas.

O primeiro passo para evitar o alastramento dos danos emocionais e materiais, pode repousar no reconhecimento de que somos passiveis de erros e que o acerto é proveniente das falhas, isto é, a experiência adquirida.

É importante lembrar sempre que de uma forma ou de outra os choques da convivência social são inevitáveis, visto que, somos peças de diferentes formatos tentando se encaixar no outro, no entanto, a cada choque e a cada crise, temos de aprender a nos refazer, a nos remendar satisfatoriamente e a zelar pela manutenção de nossas janelas emocionais.

 


DR Pequeno
© Texto com Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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