As ilusões do Ensino Superior

Foto de Andre Hunter no Unsplash
Foto de Andre Hunter no Unsplash

Foi-se o tempo em que as universidades formavam o homem. Na virada do século XIX para o século XX, a nascente perspectiva futurista influenciada pela revolução industrial lançou os ocidentais a uma busca de estabilização profissional, isto é, começava a se ter nos bancos escolares uma maior preocupação em formar o profissional, o especialista em detrimento da formação moral, cívica e verdadeiramente intelectual do homem. O mais importante, então, passou a ser o preenchimento das lacunas especializadas exigidas pela cadeia produtiva, isto é, o homem foi transformado em máquina.

A universidade há muito deixou de ser estritamente palco de discussões sérias a respeito do viver, da existência, da localização do próprio ser na vida. Hoje, mais imbeciliza e cria ilusão de superioridade intelectual do que prepara o homem para a sua própria existência. Preparar para o mercado de trabalho é prioridade, nem que para isso aja um déficit intelectual, pois, o mais importante agora é quantidade e não mais a qualidade, ou seja, a cadeia produtiva dominou também a educação. A universidade está montando e condicionando homens-máquinas que estão deixando de viver o presente por estarem de olhos fixados e perdidos no futuro, que por si só é incerto, inalcançável, pois, sempre vai exigir mais.

Jovens quando resolvem adentrar a universidade iludem-se com a perspectiva de tornarem-se facilmente intelectuais. No entanto, para isso, é preciso basear-se em teorias e hipóteses e ultrapassá-las, reescrevendo-as, afinal, segundo a concepção nietzschiana, “não existe verdade absoluta”, mas recortes de realidade e fragmentos de verdade que, com o tempo e as descobertas, podem se agrupar como as peças de um grande quebra cabeça. Ideias que nascem condenadas a serem superadas mais adiante.

A universidade limita as possibilidades do aluno superar-se, pois, o Ensino Superior está engessado de uma forma tão sistemática, que é normal os acadêmicos discutirem as teorias e hipóteses, muitas vezes confundindo os sentidos propostos. Somente as discutem. Não tentam ultrapassá-las e modificá-las, pois, para isso é preciso ter um método, dizem os mestres, “tens que provar que se trata de ciência, deves especificar qual teórico e qual método vais usar”, para não dizer: “qual teórico e qual método vais usar para te bloquear a vertente de teus pensares”. A universidade raramente forma “criadores”, pois, é mais comum construir “copiadores”. Além do mais, se tem, ainda, a deficiência advinda dos ensinos fundamental e médio, como a dificuldade em abstrair e principalmente a de interpretar um texto, isto é, mesmo na universidade existe o analfabeto funcional.

Foto de Esther Tuttle no Unsplash
Foto de Esther Tuttle no Unsplash

A defasagem intelectual acarreta a ilusão de que um diploma resolve tudo, que é a panaceia para todos os problemas. Formandos, em sua grande maioria, passam a conhecer o mínimo do mínimo de uma determinada área e se convencem de ter chegado ao ápice do conhecimento, isto é, adquirem um grão de areia e ostentam seus títulos de bacharéis, licenciados, tecnólogo etc., na ilusão e prepotência de se ter o deserto do Saara no bolso, quando, na verdade, se precisaria de uma eternidade para encher o cavado da mão com grãos de areia como é uma formação acadêmica em relação à sabedoria.

Poucos são os que ultrapassam das barreiras construídas para reter os processos de criação e desalienação e mais poucos ainda são os que rompem com os diques de inação intelectual. São aqueles alunos que se dedicam a ir além do proposto, os que têm sede de conhecimento, como também os professores que se esforçam paulatinamente para serem marcantes na vida de seus. A universidade não deve formar apenas o profissional, mas também criar mecanismos que desperte nos alunos o espírito crítico, para que raciocinem com lógica e sem influência, isto é, a formação de cidadãos autônomos moral e intelectualmente. Assim, creio, estaríamos a caminho da formação do homem, tanto profissional, quanto como cidadão.


DR Pequeno© Texto com Todos os direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.