Estamos sempre no melhor dos mundos possíveis

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Nos atuais tempos turbulentos e confusos em que estamos inseridos nesse início de século e milênio, no dia a dia influenciados pelas más notícias e pelo atual comportamento humano, não é raro, mas comum, ouvirmos que o mundo está padecendo por falta de amor. No entanto, do ponto de vista filosófico baseado em observações e mensurações de acontecimentos históricos, podemos perceber que, na verdade, o mundo está inundado de amor como nunca esteve.

Ainda imberbe fiquei deveras entusiasmado quando li o livro “Cândido ou o ingênuo”¹ de Voltaire, escrito em 1759 em contraposição a afirmação do filósofo e matemático alemão Leibniz e sua corajosa afirmação, da qual me apropriei para título deste texto:

Estamos sempre no melhor dos mundos possíveis. Leibniz

Voltaire além de enciclopedista brilhante foi um satírico que acreditava piamente que a afirmação de Leibniz era de uma inocência sem precedentes, tanto que escreveu o livro citado para de uma forma humorada contrapor o filósofo alemão.

Atrevo-me a suspeitar que o iluminista Voltaire ao escrever sua obra tenha deixado de avaliar e esmiuçar o contexto histórico e as mudanças abissais que vinham ocorrendo, principalmente em sua época, na qual ele foi um dos grandes responsáveis pelas instigantes ideias iluministas, pois, o mundo passou a ser um lugar melhor posteriormente a esse evento significante da história humana.

Se tivéssemos o hábito da reflexão e da observação do que ocorre ao nosso derredor, perceberíamos que a cada dia estamos trilhando um novo caminho, mais humano, fraterno e acolhedor. O caos visível e sensível que se apresenta atualmente é um reflexo de tudo aquilo que está em transformação, visto que, não há mudanças sem confusão, muito menos contratempos. Como exemplo, ainda que menos complexo, mas simplório, podemos visualizar a reforma de uma casa, na qual seus habitantes continuam em seu interior. O planeta Terra é nossa atual casa e está em plena transição.

Do livro “A revolução do amor”² do francês Luc Ferry — uma obra de cunho histórico, filosófico e sociológico —, entendi que a evolução moral, intelectual e tecnológica em que estamos inseridos atualmente foram proporcionadas pela transformação que ocorreu na família desde o fim da idade média, quando os casamentos começaram a ocorrer mais por afinidades do que por arranjos econômicos. Nesse contexto, as famílias ocidentais passam a envolverem-se mais nos laços fraternos, tendo como base o amor e o pertencimento.

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Foto de Samuel Zeller no Unsplash

A família como base primordial de outros segmentos de nossa vida proporciona os prolongamentos que influenciam o comportamento social desses outros setores vivenciais. A maior aproximação entre os sujeitos familiares proporcionou uma revolução em todo comportamento humano devido ao afeto e ao apego desenvolvidos no seio familiar. Para Luc Ferry, a revolução do amor está fazendo com que as pessoas pensem melhor antes de morrer pela pátria, por uma ideologia, pela fé e por uma religião como ocorreu nas cruzadas, mas está se tornando normal tombar por aqueles que lhe são caros e lhe proporcionam a capacidade de amar.

Hoje caminhando em direção a meio século de existência, meu conceito em relação ao mundo sofreu uma virada significativa, visto que deixei de concordar com Voltaire e melhor compreendi o conceito elevado e sensível de Leibniz. Negar que o mundo está melhor é desmerecer toda evolução no campo moral, intelectual, espiritual e tecnológico conquistada por nossos antepassados e desacreditar que também somos atores protagonistas desse processo.

Queiramos ou não, o amor está triunfando sim, e entre altos e baixos está transformando para melhor a nossa vida, bastando para isso observar as conquistas passadas e atuais, como também as conscientizações vigentes, sejam humanitárias ou ambientais entre outras que ganham atenção e a cada dia atingem nossos corações, nos levando a enxergar o mundo por um novo prisma, ou seja, pelos olhos do amor.


 

  1.  VOLTAIRE. Cândido, ou o Otimismo. Companhia Das Letras.
  2. FERRY, Luc. A revolução do amor: por uma espiritualidade laica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

DR Pequeno©Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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