Seres invisíveis que vivem entre nós

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Foto de Toa Heftiba no Unsplash

Entre as várias fantasias infantis que acompanham o ser humano por sua vida está a de ser invisível. Esse desejo de transformar-se em algo não tangível pela matéria e ficar com Giges, que segundo a cultura grega adquiriu essa graça depois de encontrar um anel — o que tem inspirado vários escritores como J. R. R. Tolkien que escreveu “O Senhor dos Anéis”¹ —, mesmo que não assumamos, faz parte de nossos desejos e fantasias mais secretas.

Essa vontade de invisibilidade talvez se manifeste ante um problema que não desejamos encarar de peito aberto, como também muitas vezes para fugir de nossas responsabilidades, principalmente aquelas que nos cobram um preço maior por nossas escolhas e atitudes. Todos nós em algum momento ou situação em nossa vida, já desejamos mais do que tudo sumir, desaparecer, ficar invisível aos olhos do outro.

O que podemos observar é que não podendo desfrutar da invisibilidade tornamos invisíveis aqueles cujas imagens e situações nos incomodam e talvez mais profundamente nos chame a responsabilidade diante de nossa parcela de culpa por estarem muitas vezes na situação em que se encontram, isto é, da responsabilidade social de cada um diante do mundo e de seus semelhantes.

As ruas estão lotadas de seres com nome, sobrenome e histórias de vida que carregam um desses tipos de invisibilidade. São os ditos desafortunados que o rolo compressor do progresso deserdou, os desesperançados que desistiram da caminhada por falta de uma oportunidade, de um conselho e, por que não, de que alguém fosse um pouco mais duro com eles a respeito da vida e sua indiferença, mas que mesmo assim a caminhada deve continuar.

Outros tipos de cidadãos invisíveis são aqueles que prestam sua grande contribuição na manutenção das engrenagens sociais desenvolvendo de forma silente seus trabalhos. Esses estão nas cozinhas, nas ruas, limpando-as, nos afazeres quase que imperceptíveis, mas bases para o bom andamento dos demais. Nesses cidadãos e cidadãs repousa a maior importância entre as engrenagens da vida social, pessoas que desenvolvem seus trabalhos humildes e nem sequer lembramos de reconhecer o valor dos mesmos ante à vida humana e seus principais aspectos.

Os fios sociais que nos sustentam se tornam invisíveis ante a tirania do ego e a nossa ideia de autossuficiência. Dado a isso não percebemos a grande importância que possuem determinadas profissões em nossa vida. Levados a valorizar rótulos e títulos, praticamente desprezamos determinados profissionais invisíveis, que diuturnamente labutam retirando de nosso ambiente os dejetos descartáveis provenientes de nosso consumo, operando na profilaxia de epidemias e outros males advindos do acúmulo de lixo.

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Foto de Sylvie Tittel no Unsplash

O interessante nesse mundo de invisibilidade é que, assim como tornamos outros invisíveis, há outros que nos tornam também invisíveis. Essa é uma dura realidade, uma peça que nos prega a vida e nos mostra que não somos autossuficientes, pois, estamos entrelaçados uns aos outros por cordões de ajuda mútua, fios sociais movimentados por seres na grande maioria, invisíveis a nós.

Diuturnamente estamos dando as mãos às pessoas invisíveis, seja através do alimento que chega a nossa mesa ou ao material de higiene, por trás de toda a logística desenvolvida para chegarem até nós, inúmeras são as pessoas que estiveram envolvidas na produção e transporte desses bens de consumo, como também de outros objetos e produtos que facilitam nossa vida. Essas pessoas não são nossas conhecidas, nunca vimos nenhuma delas, mas existem de forma invisível aos nossos olhos como também existimos invisíveis aos olhos delas.

A facilidade que a vida adquiriu ao longo dos últimos séculos, encurtando distâncias e produzindo em larga escala, tem nos deixado embriagados de presunção a ponto de praticamente anular nossa humildade. Falta-nos o equilíbrio para constatar o fato de que não somos autossuficientes, pois, por trás de tudo aquilo que chega às nossas mãos existe uma multidão de seres invisíveis.


  1. TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. Volume único. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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