O elixir da longa vida e o egoísmo que há em nós

 

Honoré de Balzac em seu conto de início de carreira “O elixir da longa vida”¹ invoca nossos mais profundos instintos de conservação e impulsos egoísticos. Um ancião à beira do precipício da morte dá um pequeno frasco a seu filho e pede que o mesmo, após ele dar o último suspiro passe o óleo misterioso por todo seu corpo a começar por sua cabeça.

O filho instantaneamente após o pai falecer começa a passar o conteúdo do frasco ao redor de seus olhos e para sua surpresa, no local onde passou o unguento, a pele rejuvenesceu e o olho abriu mais jovem e brilhante. Ao perceber se tratar de algo ligado a juventude eterna, tratou logo de interromper o acertado com o pai e guardou o frasco com seu conteúdo para usar consigo mesmo quando chegasse a sua fatídica hora.

Balzac talvez tenha se inspirado no mito grego de Admeto e Alceste para escrever seu conto. Admeto um jovem rei da Tessália tratava tão bem seus servos, que Apolo, o deus da retidão resolveu se disfarçar de vassalo e testar a bondade do rei. O deus grego ficou tão impressionado com a bondade de Admeto que lhe prometeu uma segunda chance assim que a morte viesse levá-lo.

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Foto de Craig Whitehead em Unsplash

Passados alguns anos depois de ter desposado a bela e disputada Alceste, Admeto adoeceu repentinamente e ao perceber a aproximação da morte invocou Apolo para cumprir sua promessa e o deus o tranquilizou dizendo-lhe que tudo estava acertado com a morte, no entanto, a morte impôs uma condição: alguém teria de morrer em seu lugar. Por ter sido muito bom com seu povo, todos tinham como certo que muitos se ofereceriam ao sacrifício, o que não ocorreu e até mesmo seus pais, apesar de estarem com a idade bem avançada, se negaram a tal coisa, justificando que gostavam muito da vida.

Para surpresa de Admeto, Alceste se ofereceu para morrer em seu lugar, pois, não suportaria viver sem tê-lo por perto, e assim, a morte levou a rainha, enquanto Admeto chorava seu luto ao mesmo tempo, em que se sentia grato por estar vivo. Hércules apiedado da situação do casal foi atrás da morte e após lutar com ela resgatou a rainha que voltou para junto do rei, muda e praticamente paralisada, tendo em vista tudo o que viu no outro lado da vida, o que entristeceu ainda mais Admeto.

O desejo inconsciente que trazemos na alma por uma vida eterna, nada mais é que um tipo de temor e até mesmo certa covardia em enfrentarmos a vida e suas agruras. E esse desejo mexe tão profundamente com nosso ser, que nos faz lançar mão ao nosso egoísmo na tentativa de alcançar aquilo que primeiramente nos beneficie, mas, buscando protelar sofrimentos, acabamos sofrendo ainda mais. A máxima popular “pouca farinha, meu pirão primeiro” é tão verdadeira, que basta encontrarmo-nos em situações parecidas com a do ancião do conto de Balzac e do mito de Admeto para perceber o abandono, visto que em maioria, somos levados e conduzidos por nossa ganância e egoísmo exacerbados.

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Foto de Oladimeji Odunsi em Unsplash

Não há como negar que o egoísmo está totalmente ligado a materialidade das coisas em si mesmas, levados por isso, os alquimistas buscaram por longo tempo confeccionar um elixir que fosse capaz de se comportar como uma panaceia para todos os males manifestados no corpo físico. Para os espiritualistas o elixir da longa vida é imaterial e eterno, pois, está ligado ao espírito.

O elixir da longa vida está n’algum canto de nosso ser aguardando ser encontrado e possui o poder de rejuvenescer e curar nossa alma a partir do momento em que nos conscientizar de nossa falibilidade, como também de nossa perfectibilidade, aceitando e enfrentando os processos decorrentes da vida de cabeça erguida, aprendendo que realmente podemos suportar toda a carga dos problemas, que muitas vezes tratamos de multiplicar ao nos negarmos a enfrentá-los.


  1. BALZAC, Honoré de. O elixir da longa vida e outros contos fantásticos. Trad. Ana Moura. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1973.

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