Entre a sensibilidade e a insensibilidade

A vida nos reserva muitas surpresas em seu percurso, principalmente quando soubemos que pessoas de comportamento exemplar, bem como, artistas de talento e sensibilidade irretocáveis cometem atrocidades. As pessoas mais vividas, por isso, mais sábias, jamais confundem o homem com o artista, a obra com o autor, visto que, são personagens totalmente diferentes.

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Foto por Blake Cheek em Unsplash

Não é necessário muito discernimento para percebermos a dualidade em que vivemos, ou seja, a máscara social da convivência e nossa real essência. A primeira situação — a das máscaras é puramente artística, já que é apenas uma interpretação do mundo que não corresponde ao nosso interior. A segunda, a do nosso verdadeiro mundo interior é aquela que vem à tona e se manifesta quando provocados os nossos mais primitivos instintos, principalmente os da sobrevivência.

Carlo Gesualdo, Príncipe e Conde de Venosa (Itália) em 1590, após flagrar sua esposa com o amante no palácio de Sansevero apunhalou a mesma mais de trinta vezes, na sequência — segundo a lenda —, obrigou o amante vestir a camisola ensanguentada de sua esposa e também o apunhalou várias vezes. Não satisfeito seu furor, deslocou-se até seu castelo e foi até o quarto onde estava seu filho e golpeou a cabeça do mesmo na guarda de seu berço até a morte, pois, julgou que o mesmo era filho do amante de sua mulher. Após o ato fatídico, Gesualdo, sentou-se diante sua escrivaninha e compôs o madrigal “Se la mia morte brami”, considerada uma das mais belas canções da Renascença.

Gesualdo jamais foi preso ou respondeu por seus crimes, pois, tinha inimputabilidade por ser nobre, por isso, praticava seus crimes abertamente. Atualmente crimes cometidos por pessoas como Gesualdo, famosas ou não, devido as penas impostas pela lei, ganham uma encenação maior e bem mais arranjada do que a cotidiana das máscaras sociais. Esposos e esposas que assassinam seus cônjuges, somem com o corpo e denunciam o desaparecimento, como também, choram em público ao organizarem grandes buscas pelos entes “desaparecidos”.

Sem dúvida nenhuma, Carlo Gesualdo, assim como pessoas como ele são enquadradas clinicamente como psicopatas, pois, cometem atrocidades e no instante a seguir passam a viver como se tivessem realizado algo banal. São seres que se sentem acima de tudo e de todos como era a condição de Gesualdo na época, visto que, a lei não podia alcançá-lo. Como atualmente o psicopata não possui a inimputabilidade que possuía o príncipe de Venosa, ele lança mão de ardis para persuadir, enganar e confundir os agentes da lei, os entes e amigos mais próximos. Dotados de charme e carisma acentuados mascaram suas reais facetas.

Nietzsche em Genealogia da Moral, logo no prólogo pergunta: “Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?” Ao meditar sobre o proposto pelo filósofo alemão fica evidente que se torna mais difícil conhecermos o outro se não conhecemos sequer a nós mesmos.

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Foto de Azamat Zhanisov em Unsplash

Talvez a real essência do ser humano esteja flutuando entre o que ele piamente acredita ser e o que representa ser aos olhos do outro, isto é, entre a sensibilidade e a insensibilidade habitam nossos mais secretos monstros, nossos soldados mercenários que dependendo da ocasião e anonimato garantido, faqueiam, dão tapas e escondem a mão.

O psicólogo norte-americano Kevin Dutton em seu livro “A sabedoria dos psicopatas”, diz que o mundo jamais esteve tão dominado por psicopatas como está hoje, sejam eles, criminosos ou funcionais. Eles estão entre nós utilizando de peculiar inteligência acentuada, carisma e charme para se tornarem bem-sucedidos na vida e no mundo dos negócios. Cabe ressaltar, que não nos conhecemos e não nos conhecendo, podemos sim, estar entre essa nova geração aperfeiçoada de psicopatas, principalmente funcionais.


DR Pequeno

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