O bode expiatório

Na gênese Adão culpou Eva por ter comido a maçã, Eva por sua vez culpou a serpente, que desde então adquiriu a fama de má, tanto, quanto desprezível. O fato da negação está no aspecto puramente humano de não nos aceitarmos como realmente somos, porquanto isso nos diminui ao reconhecermos nosso devido lugar, bem como nossos próprios defeitos.

No princípio da tradição religiosa hebraica, como consta em Levítico, no dia da expiação, dois bodes eram levados ao altar do templo sagrado, um deles era sacrificado e o outro — após o sacerdote chefe lhe confessar os pecados do povo —, era enviado para o deserto, local no qual, segundo a crença da época, os pecados eram totalmente aniquilados, com a morte do caprino.

Na idade média a expiação dos pecados passou a ter caráter financeiro através da venda de indulgências. Com o passar do tempo incorporamos mais intensamente em nossas relações sociais, outra forma de nos eximir da culpa, isto é, o aspecto psicológico de terceirizar e transferir a outro o próprio erro.

Na psicologia, a fuga de nossas responsabilidades ante um fato depreciativo é tratada como o mecanismo de defesa “projeção”, isto é, projetar no outro a nossa própria culpa, aliviando inconscientemente nossas angústias e aflições diante de nosso verdadeiro eu. Tal ação nos possibilita fugir, assim, de uma autoavaliação, que resulta sempre em um encontro como nossa verdadeira personalidade, que pressionada pela cultura e costumes tratamos de exilá-la em nosso inconsciente.

Pensar, sem dúvida alguma é um ato filosófico, pensar sobre nós, é, ainda mais profundo e dolorido, por isso evitamos a autoavaliação de nossos atos. Segundo Deleuze em seu livro — Nietzsche e a filosofia —, “(…) a filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso.” Essa seria a maior razão de evitarmos pensar demasiadamente, visto que, tememos deparar-nos com nossa própria tolice em pensar e agir de forma fantasiosa em relação ao que realmente somos.

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Foto de Maria Teneva no Unsplash

É mais fácil viver em um mundo competitivo, transparecendo ser aquilo que não somos, no entanto, quando isso foge do controle, se torna um tanto quanto perigoso, visto que, o indivíduo passa a acreditar na própria idealização do que ele verdadeiramente não é. Ao se deparar com um ato reprovável, tanto moral, quanto ético surge a negação e com ela a projeção, que por sua vez encontra um bode expiatório para carimbar com a própria culpa ou responsabilidade.

A cobrança imposta por nossas relações sociais em todos os seus contextos nos faz agir como se fossemos perfeitos e não perfectíveis. Ludibriados pela ideia da perfeição tendemos a cobrar mais a perfeição do outro. Isso ocorre porque sem uma autoavaliação não conseguimos ver a nós mesmos. Nas palavras de José Saramago no conto — Ilha desconhecida — “é necessário sair da ilha para ver a ilha”, isto é, para nos vermos é preciso que passamos a olhar-nos como se fossemos um estranho. No entanto, fazendo isso, iremos esbarrar em alguém desconhecido, a outra parte que constantemente negamos a nós mesmos, parte de nossa personalidade que é exilada nas profundezas de nossa inconsciência, algo que vez por outra imerge em nossos atos falhos.

Na Grécia antiga o filosofo Diógenes, durante o dia andava pelas ruas com uma lanterna acesa a procura do homem perfeito. O comportamento desse pensador grego é uma alusão de que não existe o ser perfeito, e se existe está inalcançável a nós, pelo menos por enquanto. Tomando por base isso, devemos encarar nossos erros com a cabeça erguida e mesmo que o mundo desabe sobre nós, devemos seguir em frente, cientes de que os erros deixam sempre um aprendizado. Assim sendo, não devemos em hipótese alguma, nos envergonhar deles, muito menos transferi-los a outros, utilizando-os como bodes expiatórios.


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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