A lição das araras azuis

Em uma época anterior aos descobrimentos, em algum ponto das terras que futuramente formariam o Brasil, entre o Povo Guarani, dois jovens apaixonaram-se perdidamente. “Olhos de fogo”, um jovem guerreiro enamorou-se por “Estrela Pequena”, filha do cacique. Decididos e desejosos a não mais se separarem, foram até o Pajé da aldeia para solicitar um feitiço que os unisse até a morte.

O velho Pajé compadecido e solidário com a euforia dos jovens apaixonados, que pouco sabiam da vida, resolveu ajudá-los. Disse que faria um feitiço que os ligaria até a morte, mas que para isso, teriam de sair imediatamente da aldeia para capturar o mais formoso casal de araras-azuis que encontrassem, trazendo até ele as aves vivas e sem ferimentos no prazo máximo de sete dias.

Foto de Halanna Halila no Unsplash
Foto de Halanna Halila no Unsplash

No sexto dia os jovens retornaram com um casal de araras em um cesto e foram diretos a Oca do Pajé, que os recebeu e ao retirar as aves do cesto percebeu que as araras eram de uma beleza ímpar. O velho curandeiro alcançou a arara fêmea a jovem “Pequena Estrela” e, a arara macho ao jovem “Olhos de fogo” e ordenou que amarrassem as duas aves pelas patas com uma tira de couro e as largassem para que partissem voando.

A arara macho tentava alçar voo e era impedido pelo peso da arara fêmea. A arara fêmea por sua vez, ao tentar realizar o mesmo intento era impedida pelo peso do macho. Amarradas uma à pata da outra, o máximo que as aves conseguiam fazer era dar alguns saltos pelo chão. Em pouco tempo devido à situação estressante o casal de araras começou a se agredir violentamente.

Devido à violência entre as aves ter chegado aonde o velho Pajé desejava, ele ordenou aos jovens que as desamarrassem e as soltassem, para enfim, voarem livres. O casal apaixonado, mesmo sem entender o que estava acontecendo, obedeceu ao velho curandeiro e ao soltarem as araras, elas voaram lado a lado, como sempre voam em liberdade.

O velho Pajé repousou cada um de seus braços no ombro de cada um dos jovens e os fez contemplarem com ele o voo das araras, enquanto lhes dizia: observem a graça do voo dessas araras. Jamais esqueçam o que estão vendo. Este é o meu conselho. Vocês são como o casal de araras-azuis. Se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, e assim, cedo ou tarde, começarão a machucarem-se, magoando-se, ferindo o coração um do outro. Se quiserem que o amor perdure, voem juntos, mas jamais amarrados. Amar e respeitar a liberdade do outro, ainda é o melhor feitiço para se levar uma vida a dois por tempo indeterminado.

Foto de Juliana Amorim no Unsplash
Foto de Juliana Amorim no Unsplash

Muitas pessoas levadas a confundir o amor com o sentimento de posse, acabam cerceando a liberdade do outro, recorrendo às fórmulas mágicas, às simpatias de encantamento e até mesmo aos processos de amarrações espirituais, para manterem outros presos às suas vidas. Conseguem muitas vezes o que querem, mergulhando os relacionamentos em tumultos, uma vez que a essência livre se agita dentro das vítimas desse tipo de violência e submissão a favor de um, em detrimento a liberdade de escolha do outro.

A moral que o velho Pajé passou aos jovens indígenas é a moral da liberdade e do respeito mútuo, que uma vez internalizado nos relacionamentos os torna invulneráveis às vicissitudes e aos desentendimentos. A lição das araras-azuis está na fidelidade[1] que possuem até a morte, vivendo sempre juntas compartilhando responsabilidades como a criação dos filhotes. Aves que se fazem interessantes, visto que possuindo a liberdade de voarem sozinhas e de pousarem em outros galhos, optam por voarem unidas, lado a lado, pousando sempre em um mesmo galho.


[1] As araras azuis, indivíduos da família dos Psittacidae, formam casais que perpetuam pro resto da vida. Estes casais vão cuidar dos filhotes juntos, onde o macho pode sair para buscar alimento e a fêmea fica no ninho ou vice-versa. Os casais se mantêm juntos enquanto estão vivos, somente com a morte do macho ou fêmea é que passam a viver sós, ainda assim, é muito difícil o indivíduo que restou arrumar outro parceiro sexual.

DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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