A MODERNIDADE E O MITO DE NARCISO

A sede por evidência, aliada à possibilidade de concretização desse desejo através das mídias sociais, vem causando um fenômeno de exposição íntima como nunca se viu na história humana. Estamos perdendo as noções de pudor e do privado a ponto de fatos que antigamente ficavam limitados a consultórios psicológicos e salas de confissão religiosa, aparecerem de uma forma ou de outra, expostas nos perfis de integrantes das redes sociais.

Poderíamos batizar o fenômeno em questão de “Síndrome do umbigo”, pois, em tempo algum estivemos centrados em nós mesmos, no entanto, esse olhar para si, está longe de uma introspecção, mas dominado pela busca de uma idealização do que não somos e o insano desejo de ser o centro do mundo. Estamos perdendo o nosso referencial humano a partir do momento em que tratamos nós mesmos como mercadorias que devem ser exibidas em uma feira e não mais como humanos que dependem de suas interligações, para viver, sentir, receber e doar calor humano.

Foto por Noah Buscher em Unsplash
Foto por Noah Buscher em Unsplash

Aos poucos, estamos deixando o toque e a conversa in loco, natural, espontânea para entrar cada vez mais em um mundo fictício e frio. Aplausos e carinho no ego é o que buscamos mais profundamente nas nossas inter-relações virtuais, pois, estamos doentes psiquicamente, doença que poderíamos chamar de solidão silenciosa, e o pior, uma solidão carente de atenção, pois, se trata de uma outra parte que abandonamos em nós mesmos, uma parte que deserdamos. Esse abandono, creio, dá-se pelo fato de não aceitarmos viver e ser como realmente somos, mas buscar manifestar na estética exterior e no status aquilo que idealizamos, mesmo sabendo que isso não é nada real, mas um sonho impossível de ser realizado.

A busca pela atenção em um mundo virtual, sem longe nem perto, território sem fronteiras e sem lei, tem causado uma espécie de cio coletivo devido à excitação acentuada a que estamos vivenciando, mergulhados nesse desejo de exposição cuja vaidade despertada simplesmente dá as cartas. Esse desejo de ser visto, contemplado e aplaudido carrega em si uma peculiaridade: não aceita nada negativo, como um comentário, mas exige veladamente que todos aqueles que fazem parte de nossa teia de interligações pensem e nos vejam da mesma forma como nos vemos e pensamos. Somos o centro de nosso mundo e estamos inutilmente tentando nos colocar como o centro do mundo dos outros.

No jogo das interrelações sociais, está desaparecendo as noções do belo, do grotesco, do ridículo, tanto quanto do apelativo e do sarcástico. O mundo digital, virtual, território que aos poucos os usuários estão descobrindo que é livre e sem fronteiras está se tornando uma grande e constante feira de troca de lixo psíquico[1].

Foto de yang miao no Unsplash
Foto de yang miao no Unsplash

Ao mesmo tempo, em que procuramos um espaço na janela virtual do mundo para sermos notados, aberrações e o mundo interior de outros inundam nossas telas, mas isso é o preço a ser pago por nossa curiosidade a respeito dos passos da vida de outros.

Levamos milênios para abandonar o estágio rude e atingir o nível sociável que alcançamos, e isso só foi possível ao desenvolvermos as noções de coletividade, as quais estão silenciosamente sendo destruídas pelo comportamento individualista em que estamos mergulhando levados pelas ilusões e aparências do mundo virtual. Talvez o Homo Sapiens[2] tenha chegado a seu último estágio de evolução e agora esteja entrando em um estágio paralelo, estágio narcisista, quando alcançará o próprio fim, assim como o mito grego Narciso que morreu apaixonado pela própria imagem refletida em uma lâmina d’água; no caso do humano contemporâneo, a imagem está nas telas dos computadores e outras mídias, pelas quais alimentamos e expomos nossas vaidades.

[1] Lixo psíquico é tudo aquilo que é reprimido, não expresso ou acumulado sob a forma de ressentimentos, angústias e frustrações e que irá poluir nossa relação com o outro e intoxicar nossa própria mente.
[2] Homo sapiens é o nome dado à espécie dos seres humanos, de acordo com a classificação taxonômica. Esta é uma expressão latina que significa literalmente “homem sábio” ou “homem que sabe”.

DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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