A CEGUEIRA E A AMPUTAÇÃO DE NOSSOS SENTIMENTOS

Uma velha parábola hindu conta que na Índia, próximo a um santuário dedicado a um determinado deus[1], há muito, com determinada violência, dois mendigos disputavam a esmola dos peregrinos em uma estrada próxima ao templo. Odara, ex-combatente do exército britânico[2], andava apoiado nas mãos arrastando o restante de seu corpo, pois, havia perdido suas pernas em uma guerra defendendo o Império Inglês. Raj, cego de nascença era guiado por seu olfato, intuição sensorial e uma pesada bengala, que também manejava com maestria para se defender de ladrões e desafetos.

Raj ao sentir a presença de Odara em seu perímetro de mendicância tratava logo de localizá-lo e consequentemente expulsá-lo a golpes de bengala, enquanto seu desafeto e concorrente fazia de tudo para se defender dos golpes ao mesmo tempo, em que se arrastava retirando-se para seu ponto.

Foto por Frank Holleman em Unsplash
Foto por Frank Holleman em Unsplash

Quando Raj invadia o território de Odara, o mesmo o expulsava a pedradas e golpes de vara abaixo da cintura. Assim, por muito tempo esses dois mendigos disputaram a atenção dos peregrinos e suas moedas, mas, um dia o inesperado aconteceu.

Em uma determinada data, um peregrino ao acender incensos ao deus venerado no templo, acabou por derrubar as velas e demais incensos no santuário, que em poucos minutos ardeu em chamas, fazendo com que o fogo se alastrasse para o vilarejo vizinho, no qual os mendigos disputavam as rúpias[3] dos peregrinos. Raj ao perceber o tumulto das pessoas correndo, como também ao sentir o cheiro de fumaça, não teve dúvidas de que seria fulminado pelo incêndio, pois, ninguém lhe deu atenção aos gritos de socorro, e além do mais, não conseguia saber a direção do fogo. Enquanto isso, Odara encontrava-se na mesma situação, no entanto, ele sabia a direção do fogo e para onde ir, mas faltando-lhe as pernas, percebeu que não teria tempo.

Naquele momento crítico só havia uma mesma solução para os desafetos, isto é, procurar um ao outro, e foi o que ocorreu. Odara decidiu procurar Raj para carregá-lo nas costas e Raj decidiu procurar Odara para guiá-lo para longe do fogo. Ambos perceberam que não havia tempo para diferenças e mágoas e sem muita conversa, Odara pediu que Raj o carregasse. O mendigo sem pernas guiou o cego que correu para longe do fogo e da morte com seu desafeto nas costas. O tempo passou e a normalidade retornou àquele lugar, no entanto, os peregrinos não mais puderam assistir as brigas dos dois mendigos, que agora sentavam lado a lado repartindo a esmola e defendendo um ao outro.

Aqueles mendigos antes de selarem a paz viviam escoriados, machucados e doloridos devido à disputa violenta em que estavam mergulhados. Não há como negar, cada um de nós possui um determinado número de inimigos, no entanto, diferentemente da estória dos hindus, não nos agredimos diretamente, mas nos autoviolentamos ao cultivar e armazenar em nosso ser, mágoas, raiva, inveja, ciúmes e outros males.

A máxima cristã “Amai vossos inimigos”[4] não quer dizer conviver com eles, mas, aceitá-los como realmente são, pois, todos nós trazemos imperfeição em nossa alma. Perdoar, não se deixar envolver com maus pensamentos em relação aos nossos desafetos são como se eles estivessem a nos carregar para longe do incêndio de nossas paixões e vaidades.

Foto por Ratnesh Rai em Unsplash
Foto por Ratnesh Rai em Unsplash

Soubemos como ninguém, que aliviar o coração nos torna leve, mas, para isso precisamos levar nosso coração para longe do fogo de nossas mágoas, raiva, etc., no entanto, nossa vaidade corta suas pernas. Resta-nos o pensamento, o raciocínio e a lógica, mas, nossa vaidade em nome de nosso amor-próprio, cega nosso pensamento para que permaneçamos no mesmo lugar à mercê dela.

O que fazer então? Ora, temos o exemplo dos mendigos hindus, ou seja, para fugir do fogo das paixões, do amor-próprio e de nossa vaidade é preciso que o nosso coração amputado guie nosso pensamento cego, e os dois nos coloquem em uma rota de encontro a nós mesmos, sem interferências dos maus sentimentos.

[1] Curiosidades: O número oficial de deuses na Índia chega a 330 milhões. Extraoficialmente, porém, essa conta bate na casa do bilhão.

[2] A Índia foi considerada a mais importante colônia do Império Britânico, 1858-1947.

[3] A rupia é a moeda corrente oficial da Índia. A palavra rupiah deriva do inglês rupee ou do sânscrito rupya, que significa prata.

[4] Mateus cap. V 44, 46 a 48


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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