AS REDES SOCIAIS E O VAZIO EXISTENCIAL

Atualmente, a vida consumista e tecnológica está nos arrastando para um abismo ininteligível sem que percebamos de uma forma rápida e clara. Aos poucos, em doses homeopáticas estamos apagando de nossa personalidade os aspectos de seres sociais presenciais e fontes de calor humano, enquanto que rascunhamos e transferimos fragmentos de nossa vida a um avatar de nós mesmos, frio, distante e sem ligação com o real.

Se não nos precavermos em poucas gerações, internalizaremos por completo comportamentos mecânicos e virtuais em nossas vidas e relações, e o aspecto cibernético[1] poderá sobrepujar o que nos resta de humanidade.

Foto de Aricka Lewis no Unsplash
Foto de Aricka Lewis no Unsplash

Desde há muito o homem tem associadas a sua parte biológica, partes mecânicas para melhorar as capacidades orgânicas, o que na opinião de teóricos torna quem utiliza marca-passo, aparelhos auditivos, próteses e até mesmo lentes de contato em um ciborgue[2]. Vivenciamos no advento do século XXI as evoluções biológica e tecnológica esbarrando-se nos laboratórios e na nossa vida. Atualmente somos capazes de clonar animais e se não fosse a ética já teríamos clonado humanos. Decodificamos o genoma e já estamos substituindo importantes comandos elétricos cerebrais por chips implantados no cérebro para servirem de extensões de neurônios.

Diante do acima exposto, fica fácil imaginar também que devido à aceleração da tecnologia estamos passando por um processo de virtualização do palpável como um abraço e vibração do som de um simples bom dia. Estamos delegando nossas simples ações aos teclados e telas, enquanto que alimentamos inconscientemente a solidão dos acompanhados, pois, estamos deixando de viver com pessoas reais para conviver com as vaidades virtuais.

De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? São questões ainda não resolvidas de forma plausível pela ciência, filosofia e teologia. Desde que adquirimos o hábito da reflexão, essas três questões têm nos perseguido ao mesmo tempo, em que procuramos abrigo de suas investidas na crença, na metafísica[3], no racionalismo[4] e no misticismo[5]. Mas, nesses novos tempos, estamos também, aos poucos, substituindo esses “abrigos” pelas novas tecnologias que nos conectam num mundo virtual e nos desconectam da própria vida. Enquanto que, ilusoriamente, preenchem nosso vazio existencial, as redes sociais, antagonicamente, nos aproximam das pessoas distantes espacialmente e nos distanciam das que estão próximas, muitas vezes sob o mesmo teto.

Nas redes sociais, o que se vê escancarado é o narcisismo e a estimulação do ego. Tendo a oportunidade de aparecer, muitas vezes extrapolamos as formas de exibição que a virtualização tem nos possibilitado. Devido ao mau uso dos meios eletrônicos, estamos nos tornando bufões ao expor nossa intimidade através da banalização e do vazio de nossa existência através dos “postes” e atualização de “status”. Essas interações são formas de mostrar ao mundo que estamos vivos, no entanto, vazios e carentes.

Postamos em busca de um compartilhamento ou na esperança que alguém “curta” nossa postagem confirmando que estamos sendo vistos, observados na janela do mundo, sem nos darmos conta que isso revela nosso mais profundo interior, totalmente desnudo.

Foto de Marten Bjork no Unsplash
Foto de Marten Bjork no Unsplash

Estamos vivenciando uma revolução sociológica nunca antes vista, pois, aos poucos estamos deixando de comandar a própria vida, para seguir os passos ditados por um oráculo virtual. A febre das novas mídias e tecnologias devido a expansão diametralmente exponencial em que está ocorrendo acomete crianças, jovens, adultos e idosos, pois, é ínfimo o número de pessoas que a resistem. As redes sociais são irresistíveis por terem se tornado um espelho ubíquo, pois, faz com que estejamos em vários lugares ao mesmo tempo, mundo afora, refletindo a intimidade de nossa vida.

Há muito, levados pelo consumismo deixamos de “ser” para “ter” em busca de preencher o vazio universal da existência, não bastasse isso, hoje, além de “ter”, precisamos “aparecer”, enquanto humanamente estamos morrendo.

[1] Utilização de forma consistente de recursos da internet
[2] Ciborgue é aquele cujas partes do corpo foram substituídas por mecanismos eletrônicos, normalmente exercendo a função de órgãos ou membros, podendo ou não ser ativados eletronicamente.
[3] Teoria filosófica que busca entender a realidade de modo ontológico (natureza do ser), teológico (essência de Deus e da religião).
[4] Toda doutrina que se vale da razão para explicar a realidade ou para obter conhecimento; pensamento segundo o qual a razão e o modo de pensar lógico são mais importantes que os demais.
[5] Tendência para crer em entidades ou forças sobrenaturais.

DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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