Voo de liberdade

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Photo by Mathew Schwartz on Unsplash

Quem és tu oh pássaro alado, que prostrado em teu próprio talento estás a observa-me aos pés? Que fazes tu que não estás a dominar os céus em voos construtores de tua própria história?

Que traços são esses que trazes na tez a denunciar teu triste pranto mergulhado na escuridão de tua própria negligencia?

O mundo açoitou-te e riu de ti? Certamente o insensato homem que foi criado para teu ninho, apequenou-te por tua grandeza ser demais para a pequenez do corpo dele.

Reaja, apanhe teu candeeiro para trilhar teu caminho, veja em que trevas te sujeitaram, por tua luz ser demais para os cegos que acostumados à escuridão não conhecem as propriedades do Sol e nem sequer percebem a beleza de tuas plumas.

Cadê a graça e a leveza de tuas asas a rasgar horizontes onde és senhor (a) de ti mesmo?

Não desanimes, és um pássaro rasgador de hemisférios. És tão grande. Um Hércules, a portar-te como um anão.

Prepare teu canto, mas lembra-te que no mundo uma grande maioria é surda e despreparado frente tua afinada canção.

Não acredites quando dizerem-te que és chumbo, condenado a terra.

Tu és feito de penas e asas, tua envergadura propicia-te os mais altos voos. Acredites, não estás condenado a terra, nascestes para dominar a gravidade e as adversidades, mas é preciso que acredites.

Não contes a ninguém que possui essas dádivas, conserva-te em segredo para que os verdadeiros loucos e alienados não venham a condenar-te por insanidade, entendem eles que pássaro querer voar é loucura.

Fostes feito para voar. Voes, busque encontrar dentro de ti o calor do primeiro ninho.

Voes para diante dos limites impostos pelo homem.

Voes em busca de arminho que acalente tua nobre alma.

Afasta-te do lobo homem que dentro de ti, pois nem mesmo tua carne e sangue serão capazes de saciar a voracidade dele.

Não te aproxime novamente do rato homem que há dentro de ti. Ele rirá de tua beleza e canto, e mesmo testemunhando teu suave revoar, irá tecer teses para acusar-te de embuste.

Não deixe o lobo homem que há dentro de ti pisotear as flores que embelezam e perfumam teu jardim.

Afasta de ti este mau jardineiro, condicionado a cultivar ervas daninhas dentro de ti. Afasta-te dele, que por ser um lobo preso em confinamento, há muito já perdeu a natural liberdade de correr nos campos.

Foto por Holger Link no Unsplash
Foto por Holger Link no Unsplash

Ouça o canto que soa de teu coração a clamar por liberdade. Faça dele teu novo repertório e encantarás as multidões, cansadas dos velhos corais, regidos pelos mesmos maestros do equívoco desde o nascimento da estupidez. Liberte-os, são prisioneiros silenciosos das sanções empregadas pela mesmice e suposição do que ainda não são capazes de compreender.

Encaras a ti mesmo com convicção frente ao espelho que reflete a intrepidez de teu espírito.

És diferente. Um tigre que passeias entre os ratos, todos ébrios de vaidade a julgarem-se leões.

Testemunhe tua própria grandeza espargida pelo teu canto eloquente que paralisa e encanta a todos. Porém, jamais baixe até a plateia para almejar confirmação do que já sabes. Sejas consciente, que o grande e o diferente por onde andarem haverão sempre de ter o ciúme e a conspiração a negar-lhes os louros e o brilho que lhes pertencem.

Ponha-te em fuga frente ao elogio, este sedutor de mil faces, só fará inchar tua tísica e adormecida vaidade.

Não estás a sós. Outros já quebraram as prisões da alma, mas alçam voos tão rasos convencidos pelo comodismo de já terem alcançado o cume, quando na verdade ainda estão distantes do próprio sopé.

Prime por não te apaixonar por ti mesmo, a ponto de passear de mãos dadas com o orgulho e a acalentar o egoísmo em teu próprio colo macio. Esses dois monstros devem ser mortos por ti, à mingua. Só assim poderás alcançar o topo do Everest que existe dentro de ti.

Voes, voes livre pássaro alado, voes sem temer os morcegos da humanidade, pois são vermes insignificantes diante de teu esplendor e quando buscar repousar, escolha um galho alto, longe do alcance dos ratos.

Prossiga sempre em busca do cume, não tornes a regressar aos locais por onde passar, voltar é retrocesso e um pássaro alado deve conhecer somente vitórias sobre si mesmo. Voes, ponha-te a voar e aperfeiçoar teu voo, e assim irás encontrar a velha águia a tua espera, sobre o cume. Acredite, ela encontra-se contriste a observar lá, entre as alturas das alturas, as tentativas frustradas de teus antepassados, que rolaram monte abaixo, devido ao peso de suas vaidades.

Voes livre, solto ao vento, confie em teu inefável potencial. Voes e construas tua própria história a qual depende sensivelmente de tua responsabilidade.


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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