Reflexões sobre a morte

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Foto de Sammie Vasquez no Unsplash

“… a natureza não é cruel, apenas implacavelmente indiferente. Essa é uma das lições mais duras que os humanos têm de aprender.” Richard Dawkins

Desde que o homem aprendeu organizar e ordenar seus pensamentos, a questão da morte fascina e aterroriza. A finitude tem colocado o homem numa situação sem saída, mas não o impede de construir barreiras psíquicas e esperanças futuras ancoradas em outro mundo idealizado sem as mazelas da terra. Sua idealização se faz necessária para suportar a ideia de que tudo acaba, isto é, o homem redesenha a morte como um recomeçar numa outra dimensão e até mesmo lhe dá uma característica cíclica de idas e vindas pela vida.

Para Sigmund Freud, o ser não acredita na própria morte. Inconscientemente, está convencido da própria imortalidade, “… nosso hábito é dar ênfase à causação fortuita da morte — acidente, doença, idade avançada; desta forma, traímos um esforço para reduzir a morte de uma necessidade para um fato fortuito”. Ou seja, não aceitamos a morte como algo natural que inicia e tem um fim, por isso atribuímos a ela uma causa e/ou um motivo contraditório em si mesmo. Por isso, e diante das incógnitas que a morte traz consigo, o homem a tem transformado em fonte de inspiração filosófica e religiosa para arrefecer o medo, angústias e ansiedades pelas quais o ser é tomado ao tomar consciência de sua finitude.

Mesmo após diversos estudos científicos, o mistério da morte ainda paira sobre o homem. Falar sobre a morte é algo instigante e, ao mesmo tempo, desconfortável, pois, nos tira da zona de conforto onde nos julgamos imortais e/ou inatingível pela finitude da vida, pois, o ser apega-se a vida e esconde de si que ela um dia culminará na última manifestação biológica do corpo que surge programado para funcionar por determinado tempo. E esse apego é tão demasiado que o ser apenas vivencia a morte dos que lhe rodeiam, enquanto se autoengana com uma aura de imortalidade.

Para fugir do terror da finitude, o homem tenta de todas as formas estacionar o tempo barganhando com ele o escorrer da ampulheta. O primeiro passo é esconder a idade e posteriormente submeter-se a intervenções plásticas, exercícios físicos, dieta balanceada ─ para parecer mais jovial e consequentemente distanciar-se um pouco mais da morte. Numa primeira impressão, essas atividades parecem voltadas apenas para a estética e o bem-estar, mas, na verdade, é uma fachada, um truque para adiar ao máximo o encontro inevitável com a morte e a conscientização de que a velhice se aproxima, e que a cada dia o funil da existência estreita-se em direção a uma incógnita. Sim, uma incógnita. Pois, o que existe para além da vida são apenas suposições que cumprem um importante papel diante da morte, ou seja, aliviam a tensão do fim com a promessa de continuidade.

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Foto de Henry Be no Unsplash

Quando se fala, se questiona o que há para além de um último suspiro, justifica-se então a questão religiosa, pois, esta sobrevive em grande parte graças a morte. Isto é, se o homem fosse eterno, ela não existiria, visto que, ela nada mais é do que a grande alfândega localizada na fronteira entre a vida e o desconhecido, um balcão de negociações a longo prazo, onde o homem idealiza desde a mais tenra infância sua continuidade “a perder de vista”.

Disto tudo, podemos ter certeza de uma coisa, “vamos morrer um dia”. No entanto, cabe-nos uma reflexão: como estamos vivendo nossa vida? Como estamos caminhando em direção ao último dia? Pois, viver é ter e desfrutar de prazer / é fazer do nada ao menos pegadas / por onde passou, por onde andou, / é se fazer marca nas pessoas que amou /, pois, enquanto estiverem no nada / e tu já for / ficarás com elas / ao menos nas lembranças sem dor.


Texto publicado no livro Ensaios e Outros Escritos

Saraiva


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