A MUTILAÇÃO DO AMOR

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Saint Exupéry em — O pequeno Príncipe[i] — presenteia o mundo com uma demonstração de como vivenciar o amor nas pequenas coisas. É uma obra repleta de inocência e ausência do não amor, do medo, do ódio, pois, nos devolve a pureza que o mundo nos podou assim que começou a criar nossa personalidade, moldando assim uma identidade que foge aos padrões do amor. O Pequeno Príncipe é uma criança que traz toda a leveza e lucidez que nos roubaram com o passar dos anos, ele representa a criança cheia de amor por isso consegue enxergar com os olhos do coração.

A mutilação que sofremos começa no seio familiar nas transfusões de cultura, da tradição e dos costumes. Nossa sociedade é fundamentada nos aspectos religioso e político e a família sendo sua base é a primeira instituição a matar nossa inocência. Os políticos e os religiosos como tutores sociais não são a favor do amor, são a favor do desamor, das migalhas do amor, visto que, um ser tomado de amor se basta, se torna não manipulável, uma vez que encontra o Deus dentro de si.

Infelizmente as religiões levadas pelo ego de seus líderes desviaram-se de seus objetivos, pois, estão mais propensas a desenvolverem — ainda que de forma velada — o medo e o ódio, visto que as pessoas acreditam que a sua orientação religiosa é a melhor que a do vizinho, etc., o que podemos testemunhar no fato de que a maioria das guerras em atividade no mundo são por questões religiosas. Somente a inocência de uma criança como a do Pequeno Príncipe pode perceber que a verdadeira religião não tem rótulos, ou seja, ela é o próprio amor.

Se a política não propagasse o ódio e o medo, não teríamos fronteiras, muito menos competições entre os países, não haveria as distinções de raça, de cor e de classe. A criança que há em nós em liberdade perceberia que existe apenas uma raça, a raça humana, mas para isso é preciso que o ser esteja tomado de amor e de inocência, tudo que os políticos e os religiosos não querem, visto que, só se controla outras pessoas se elas estiverem em constante tensão, isto é, a tensão é simplesmente ausência de amor, e onde não há amor a violência e a miséria imperam.

Étienne de La Boétie em seu pequeno e único livro escrito em 1552 — Discurso sobre a servidão voluntária —, lança no ar e aos corações dos leitores uma pergunta: como pode um único homem controlar milhões e ainda fazer com que muitos morram por ele? A resposta — mesmo que pareça tola — é limitar aos dominados o acesso total a completude do amor através da instituição do medo e do ódio, como também inflar o ego através do nacionalismo, da raça, da religião, da posição social, etc.

Foto por Element5 Digital no Unsplash
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Friedrich Nietzsche em — Assim falava Zaratustra — projeta toda sua sabedoria no personagem que se torna eremita e passa a viver por dez anos isolado em uma montanha, acompanhado apenas de uma águia e de uma serpente. Saudando o Sol e a natureza, Zaratustra meditando todo esse tempo encontra Deus dentro de si, o que lhe torna um ser verdadeiramente religioso, doce, leve e com sua sabedoria ainda mais profunda.

Zaratustra voltou a ser criança, havia resgatado sua inocência e desejoso de repartir a boa nova retornou aos homens para ensiná-los, mas eles não o receberam bem e não o compreenderam, assim como não compreenderam tantos seres iluminados que pela Terra já passaram espargindo amor, entre eles Jesus, que teve seus ensinamentos deturpados por aqueles que sequer entenderam o que ele quis dizer com a frase “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois, o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas”[1]  . Infelizmente, só no dia em que os humanos deixarem de ser manipulados pelos políticos e pelos religiosos haverá o triunfo do amor…

[1] Mateus 19:14

[i] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2009.


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