AQUILO QUE É PUBLICO O EGO ESTÁ TORNANDO PRIVADO

Há bastante tempo tenho percebido o silente declínio das agremiações como clubes de lazer, serviços e outros voltados ao bem e ao entretenimento coletivo. Acredito que isso talvez se deva ao avanço gradual de um determinado egoísmo na forma como temos nos relacionado com a vida e o outro, aspectos que se manifestam em detrimento aos anseios comunitários, a ideia de pertencimento e a identidade grupal. Embora de forma lenta, mas evidente, esse fenômeno narcísico ao que parece está chegando a primeva e importante base social que é a família.

Lendo o excelente livro do sociólogo americano Richard Sennett — O declínio do homem público: as tiranias da intimidade[i] —, pude estender ainda mais meu olhar sobre o presente assunto. Segundo o autor, espaços públicos como praças e parques estão perdendo o sentido de seus propósitos, ou seja, estão ainda sendo ocupados por pessoas, no entanto, as mesmas estão absortas, mergulhadas no próprio mundo, no qual, negligenciam a interação social usufruindo desses locais como se fossem privados.

É notório, basta analisarmos, observarmos o que ocorre ao nosso derredor para perceber que a interação entre os usuários dos lugares públicos está cada vez mais rara, visto que nesses novos tempos o narcisismo e a falsa noção de autossuficiência vêm agravando nosso egocentrismo.

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Foto de Nik MacMillan no Unsplash

A vida comunitária está sendo aos poucos negligenciada, porque estamos mais preocupados em construir uma imagem individual em conformidade com o que o mundo e as convenções sociais exigem e esperam de nós, mesmo que para alcançar esses objetivos tenhamos que nos violentar em busca do fútil e do supérfluo.

É visível que a nova perspectiva da vida moderna tem nos colocado em um determinado casulo, no qual temos nos isolado junto a nossos desejos, cobiças, inveja e segredos mais profundos. É nesse contexto que o ego triunfa se manifestando no fato de que quanto mais nos recolhemos ao nosso próprio interior, mais difícil se torna o relacionamento externo, o qual depende exclusivamente do outro.

Ilusoriamente vivemos em tempos de liberdade, quando, na verdade em tempo algum, nos tornamos prisioneiros de nós mesmos, quanto nesses dias em que temos confundido viver com existir. Considerando a forma como atualmente nos comportamos em nossa vida, percebe-se que estamos vivendo muito pouco e existindo bem mais, visto que, viver está ligado aos atos de autenticidade, enquanto que existir repousa na interpretação de personagens e papeis que não nos pertencem, ou seja, apenas existimos em cada máscara que vestimos em conformidade com a ocasião em que nos apresentamos totalmente avessos ao que realmente somos.

Estamos cometendo uma inversão de sentidos ao usufruir das facilidades que a vida atualmente vem nos oferecendo através das experiências acumuladas por nossos antepassados, quer de forma oral ou em gravações físicas. De posse de certos conhecimentos ao invés de olharmos para nosso interior em busca de reconhecermo-nos como realmente somos e aceitarmos a necessidade de mudanças, estamos escondendo mais profundamente nossa verdadeira personalidade, totalmente chafurdados em falsos selfs que nos protegem temporariamente de outros e de nós mesmos.

Ao percebermos que não somos anjos — mas criaturas em busca de aperfeiçoamento —, simplesmente nos isolamos em nosso próprio mundo, no qual guardamos a sete chaves nossos mais secretos vícios, defeitos e desejos, pois, tememos uns aos outros, nessa guerra em que o ego nos submete incutindo-nos a ideia de uma determinada superioridade e infalibilidade.

Não há como negar que a informação e as facilidades da vida moderna nos proporcionaram um maior conhecimento sobre as relações humanas, no entanto, essa possibilidade de saber ao menos um pouco do que somos constituídos e de como realmente nos relacionamos, nos aterroriza, porquanto choca-se com a falsa ideia que temos de nós mesmos, visto que é mais fácil e aceitável interpretar o personagem benfazejo do que se reconhecer como o vilão da própria história. Falta-nos, na verdade, coragem para anularmos — pelo menos em partes — o ego ao enfrentarmos o fantasma de nós mesmos.

[i] SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade.


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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