FAXINA EXISTENCIAL

Não sei o certo de onde vem o termo que ilustra o título deste texto, mas é algo essencial a quem quer mudar a própria vida vestindo-se de coragem e da armadura da determinação, visto que, quem resolve se arriscar naquilo que todos temem, ou seja, abandonar o comodismo, sofre determinados ataques e críticas desestimulantes.

Buscar a felicidade é um ato de coragem e rebeldia ante o status quo das sociedades que estabelecem determinadas cartilhas de comportamentos em relação ao certo e ao errado, correlacionados aos códigos morais e religiosos que mantém o cidadão preso a esses conceitos, mantendo-o em constante insegurança e tensão para melhor controlá-lo

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Foto por Drew Hays em Unsplash

Tendo por base a pressão que a códigos sociais estabelecem de forma velada e inconsciente, relacionamentos destruídos e falidos se mantêm através de uma falsa vitrine social, que pode se equiparar ao túmulo caiado[1] citado nos evangelhos, bem-acabado e pintado por fora, mas, putrefato por dentro.

A modernidade nos roubou a nossa essência da pureza infantil e sincera que reveste uma relação saudável, visto que há muito as amizades tornaram-se artificiais ao serem pressionadas pelo aspecto consumista da vida moderna baseado nos interesses escusos da vantagem e do benefício próprio e não mais no afeto e no desinteresse, pois o ser cegou-se a respeito das coisas essenciais ao coração, porquanto passou a alimentar o próprio ego através da vaidade e do egoísmo ao desejar levar vantagem em tudo.

A questão existencial do ser está totalmente confundida com ter e o aparecer, pois, não há mais a preocupação em constituir-se constantemente como sujeito testemunha e responsável pela própria história, visto que existe uma preocupação crescente e alienante em parecer ser, adquirindo tudo àquilo que não acrescenta absolutamente nada a própria existência, mas que sobrecarrega nosso campo emocional desencadeando a depressão e outros males advindos de nossa impotência ante as exigências que crescem de forma exponencial para que nosso ego seja exposto na janela ilusória do mundo.

Para aparecer, o mercado de consumo estabelece que o sujeito precisa ter, o que  ao longo dos anos vem nos sobrecarregando com o supérfluo, nos tornando acumuladores, pois, conforme a máxima do filme “Clube da luta” dirigido por David Fincher “Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos (…), compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas de quem não gostamos.”

A faxina existencial está em nos darmos conta de todo o embuste que nos envolve e a partir disso, buscar viver a própria essência retirando paulatinamente de nossa vida tudo àquilo que mais atrapalha do que nos ajuda. É preciso descartar as falsas convenções, os velhos hábitos e tudo o que nos exige uma determinada atuação ao representarmos um papel que não nos pertence de fato, pois uma nova vida revestida de autenticidade deve ter como base a sinceridade.

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Foto por Jeremy Bishop em Unsplash

A limpeza existencial perpassa pelo campo material e emocional, visto que ambos se sobrepõem. Abandonar o mundo de aparências é mais do que um ato de coragem, é a construção de uma relativa liberdade de ser aquilo que realmente somos, isto é, trata-se de um encontro consigo mesmo, terreno emocional que quanto mais sedimentado, menos se relaciona com as coisas do mundo material, principalmente o supérfluo, como também independe dos rótulos sociais como os correlacionados ao status.

A faxina existencial só se estabelece após o sujeito dar-se de conta da vida que leva comparando-a com a que gostaria de levar sendo ele próprio e não a que os demais desejam que ele viva.  Talvez essa seja a realização mais difícil da existência de um ser humano, visto que ela depende do rompimento de velhos laços da tradição, da cultura e dos costumes que moldam sua vida em sociedade.

[1] Mateus 23.27


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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