ÚTERO, O PARAÍSO PERDIDO

Desde que percebemos a dura realidade da vida e suas nuanças mescladas de sacrifícios, lutas e períodos limitados de alegrias e conforto, passamos a procurar mais intensamente a completude, isto é, o ócio, a contemplação da vida. Somos, na verdade seres nostálgicos e inconformados por termos perdido o paraíso em que estivemos até o nascimento.

Desde quando fomos expulsos do invólucro da vida, passamos a viver como um balão de ensaio que perde dia após dia o seu próprio sopro de vida. Rumamos constantemente em direção ignorada, porquanto não sabemos o que acontecerá no próximo minuto, hora, dia, mês e ano, mesmo assim, carregamos conosco lembranças fragmentadas e a certeza de ter vivido no paraíso, como também o desejo de o reencontrar.

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Foto de Sandra Seitamaa no Unsplash

Não há como negar que trazemos junto de nós saudades e lembranças vagas de um tempo sem precisão cronológica, porquanto tudo parecia eterno. Trata-se do paraíso que habita nosso inconsciente imerso na certeza de que fomos completamente felizes, tanto, que de uma forma ou de outra sonhamos reencontrá-lo. Desejamos profundamente esse reencontro porque no paraíso perdido não havia o perigo, trabalho, disputas e nem sofrimento, ou seja, tudo se fazia realizado ao alcance de nosso próprio desejo.

O paraíso de nosso imaginário coletivo nada mais é do que um arquétipo onde jazem todas as lembranças que iniciaram as bases de nossa própria consciência. Nesse armazenamento primordial estão gravadas as primeiras experiências de nossa vida como Ser, mas nenhuma delas é tão marcante quanto a experiência de perda da completude, na qual, flutuávamos sobre o conforto de sua perfeição, sentindo-nos completos, realizados e especiais.

Para a filosofia e a psicanálise freudiana, as lembranças da época intrauterina não constam apenas nos recônditos mentais, mas estão ramificadas em cada célula que nos constituem como ser biológico, como também, estão arraigadas na energia que compõe nosso próprio espírito.

Desde que perdemos o paraíso nos sentimos incompletos, algo sempre nos falta, por isso procuramos constantemente a perfeição perdida, disso surge a insatisfação porque o mundo além útero é impotente para nos dar o conforto que tínhamos ao flutuar no líquido amniótico de nossa mãe.

Nossa busca por abrigos cada vez mais sofisticados que ofereçam o máximo conforto não passa de uma projeção de nossa busca incessante por voltar a vida intrauterina. Para Osho, na procura pelo paraíso estão empenhadas a religião e a ciência, cada uma, a sua maneira buscando meios de satisfazer nossos mais profundos desejos paradisíacos.

Nesse contexto a ciência se esforça para obter o útero exterior, projetados nas casas, nos carros, no vestuário e tudo aquilo que nos proporcione conforto material e proteção. Por outro lado, a religião procura estabelecer o útero espiritual através da prece, da meditação e outras atividades que nos proporcionem conforto incorpóreo.

Na vida intrauterina tínhamos tudo, nosso mundo era completo e as nossas necessidades eram supridas na velocidade de nossos desejos, mas ao sermos expulsos do paraíso — que nos nutriu e protegeu desde que éramos apenas um fragmento frágil de vida —, fomos jogados no vazio do mundo, no qual, nossos desejos deixaram de ser correspondidos, porquanto se iniciou no instante de nosso nascimento a luta pela sobrevivência.

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Foto por Devon Divine em Unsplash

Não existem meios de voltarmos ao útero de nossa mãe, isso é fato. No entanto, podemos tomar consciência de que não podemos nos prender as noções do passado e nem mesmo sobre as projeções do futuro, uma vez que a vida acontece agora.

Talvez o amadurecimento espiritual de um ser humano esteja em sua capacidade de reconhecer que não é possível retornar ao passado, mas, que pode construir o próprio presente com a cabeça erguida e a altivez de quem se resigna e aceita as coisas que não podem ser mudadas e a partir disso, parir a si mesmo, como um novo Ser que aceita a vida com suas dificuldades e benesses, desfrutando cada segundo de sua própria história.


DR Pequeno© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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