TOME A SOPA, MAS NÃO REPARE SE O PRATO ESTIVER RACHADO

Há várias situações vivenciais em que nos deparamos com a ingratidão proveniente de corações duros. Geralmente essa deselegância é oriunda de pessoas que não admitem reconhecer que foram auxiliados em algum momento. O ego as faz sentirem-se humilhadas, diminuídas, assim sendo, procuram no emissor da boa ação, um defeito, mesmo que mínimo, para descarregar sua desforra e seu despeito.

Todos nós estamos sujeitados a sofrer determinadas críticas e desestímulos. Como aprendiz do ofício de escritor, sofri muito com o feedback dos textos que publico há muito. Recebo muito retorno positivo, mas uma minoria ínfima de leitores, ocasionalmente tenta desestimular-me veementemente.

Foto de Patrick Fore no Unsplash
Foto de Patrick Fore no Unsplash

Com o tempo aprendi a aproveitar os e-mails anônimos –  através dos quais, pessoas sem rosto me dão aulas sobre concordância verbal, emprego da crase, sintaxe, locuções adverbais e objeto direto –, para aprender, já que fui um péssimo aluno, porquanto, devemos sempre reconhecer e assumir nossos limites, no entanto, é essencial termos a consciência de saber medir as palavras, para que elas não saiam de nossa boca e mãos carregadas de aspereza, denunciando, assim, nosso vazio interior.

Quando comecei a escrever, ante as críticas recebidas recolhia-me desestimulado e parava de publicar meus textos, pois, temia ser criticado por meus eventuais erros relacionado à gramática. Isso tudo mudou depois que visitei a Casa Mario Quintana em Porto Alegre e o Memorial de Erico Veríssimo em Cruz Alta – RS. Observando os escritos desses grandes escritores, percebi os inúmeros erros gramaticais e gráficos em seus originais, todos grafados e corrigidos várias vezes. Nessas oportunidades dei-me conta que absolutamente ninguém domina completamente o vernáculo da língua mãe.

Com o escritor e psicanalista Rubem Alves, aprendi ignorar as críticas e prosseguir meu caminho através da letra. Esse grande escritor brasileiro conta que bastava ele publicar um livro para receber dias após o lançamento, uma carta com inúmeras correções gramaticais e gráficas. Essa história está no texto “A língua”, que faz parte do livro “Ostra feliz não faz pérola”[i]. Rubem termina seu escrito com a seguinte mensagem a seu crítico contumaz: “O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.”

Acredito que entre as mais importantes razões de nosso viver está na sublime frase “conheça a ti mesmo”, atribuída ao filósofo grego Sócrates. No entanto, o exercício do autoconhecimento choca-se violentamente com nosso ego, que o repele, atribuindo a outro aquilo que o fere. Nesse contexto, faz-se necessário todo o cuidado ao julgarmos as pessoas, porquanto, os defeitos que constatamos no outro, na verdade, são reflexos das lacunas que trazemos na alma, isto é, somos espelhos uns dos outros e temos por obrigação sermos gratos por isso.

Foto por Da Kraplak em Unsplash
Foto por Da Kraplak em Unsplash

A gratidão repousa em aceitar aquilo com que nos identificamos no outro, não só os aspectos positivos, mas principalmente os negativos, visto que é uma oportunidade ímpar de reconhecermos nossos limites e defeitos e a partir disso, buscar aprimorar nossas ações e atitudes. A gratidão também é humildade, isto é, tomar a sopa e beneficiar-se de seus ingredientes sem se importar se o prato está ou não rachado, porquanto é apenas um recipiente utilizado para que a sopa chegue até nós.

A cada passo que damos na vida desejamos o nosso encontro com a verdade, mas, orgulhosos que somos sequer aceitamos as nossas próprias verdades. É preciso deixar de lado todo o preconceito, todo o julgamento, conscientes de que somos perfectíveis, criaturas sujeitas a erros e acertos, somente assim encontraremos dentro de nós a Verdade Maior, que através dos maus hábitos tratamos de isolá-la em nosso próprio ser. Sejamos, pois, gratos a tudo que vem até nós, pois nada se perde, tudo se torna oportunidade de aprendizado, bastando para isso, não nos deixar levar pela tirania do ego.

[i] RUBEM, Alves, Ostra feliz não faz pérola. Planeta. 2014.


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