O discurso do ladrão

corrupcao

Numa determinada delegacia de polícia de uma cidade brasileira, a alegria era geral, foi preso o ladrão mais enigmático de todos os tempos. Ladrão que há meses vinha desafiando a inteligência dos mais espertos e astutos investigadores daquele departamento policial.

A imprensa estava toda reunida, como também os líderes das ditas sociedades organizadas, que, na verdade disputavam uma brecha na foto do acontecido e um determinado clamor por aparecer em um evento tão importante, ou seja, o esclarecimento de inúmeros roubos exóticos, estranhos e sem sentido que vinham ocorrendo, atormentando os cidadãos daquela cidade.

O ladrão PopulosViolatus havia acertado com o delegado que só explicaria a razão dos roubos em uma entrevista coletiva com a presença da imprensa e parte da sociedade. O delegado concordou e tudo foi arranjado para que as dúvidas e as curiosidades fossem sanadas no mais curto espaço de tempo possível.

Populus entrou na sala de imprensa da delegacia e logo começou a ser achincalhado de vagabundo, canalha, desumano, calhorda, etc. Mesmo assim, manteve a calma enquanto o delegado pedia silêncio e autorizou o início das perguntas, que, na verdade foi somente uma. Zé Das Desgraças, um repórter policial, estufou o peito e com um ar e expressão indignada perguntou a Populos:

─ Populos, após meses de investigação, você foi pego cometendo roubos inusitados que vinham acontecendo em nossa cidade há mais de um ano. O que todos aqui querem saber é por que roubar tudo o que estava relacionado de uma forma ou de outra ao povo humilde dessa cidade, como, por exemplo, roubou metros e metros de asfalto das ruas da periferia assim que eram entregues, roubou merenda escolar das creches e escolas das áreas mais humildes, roubou praticamente toda a medicação dos postos de saúde também dessas áreas, por que, Populos, por quê?

Businessman putting money in his pocket

 

Populos pegou o microfone e então começou seu discurso.

─ Roubei para mostrar como rouba o político, não diretamente como eu fiz, mas antes dessas coisas chegarem a seus destinos. No entanto, estou aqui preso, simplesmente porque me deixei apanhar enquanto que muito político continua roubando um montante gigantesco por isso maior do que roubei para demonstrar. Estou preso porque meu ato foi concreto enquanto que o ato do político tem um caráter reservado e ocorre através da tinta de uma caneta e dos dedos que pressionam teclas numa transferência bancária. Roubei porque desde criança meu sonho sempre foi ser político, e desde que cheguei à maior idade tenho me candidatado, no entanto, não consegui êxito nas urnas. Mas andei pensando que para sentir o prazer de ser deputado não precisaria do mandato em si, por isso comecei a roubar como os políticos roubam e, confesso, não tive somente prazeres, mas orgasmos em roubar como eles roubam, embora tenha roubado de uma forma direta. Estou preso por não ter como apresentar notas fiscais falsas e nem ter como forjar licitações, pois, para isso teria eu de ter um mandato.

Enquanto falava, ouvia longe, longe alguém a dizer:

─ Acorda, ministro, acorda…

Num determinado hotel cinco estrelas em Brasília, alguém bate à porta a dizer:

─ Ministro Populos, acorde! A imprensa aguarda sua entrevista sobre o orçamento do ano que vem.

PopulosViolatus, um senhor de 70 anos, quatro mandatos de Deputado Estadual, três de Deputado Federal, dois de Senador e duas vezes Ministro de Estado acordou sobressaltado banhado em suor com a expressão facial de quem ruma ao cadafalso, recobrou rapidamente a memória e então respirou aliviado a exclamar para si mesmo:

─ Ufa! Foi apenas um sonho…


© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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