Quando os olhos falam ao coração

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A vida em torno de seus mistérios segue seu curso nos apresentando surpresas pelo caminho por ela traçado. É comum ao nos depararmos com algum obstáculo nos julgarmos muitas vezes sem sorte, como também injustiçados, isso ocorre muitas vezes pela ausência do hábito da autocritica de nossos próprios atos, como também pela autovalorização de acontecimentos passageiros e insignificantes que nos acontecem.

Se tornou comum lamentarmos os contratempos que nos ocorrem, porque vivemos em torno do nosso próprio umbigo e muitas vezes nem sequer prestamos atenção no que ocorre ao redor da nossa própria vida. Se prestássemos mais atenção nas experiências alheias, se abríssemos mais os abraços e o coração ao outro não sofreríamos tanto como sofremos, pois, se observássemos as dificuldades alheias perceberíamos que aquilo que muitas vezes consideramos problemas, na verdade, não passam de insignificâncias.

Acredito que muitas pessoas estão neste mundo para nos mostrar que a vida, apesar de os pesares é para ser vivida. Recentemente soube da história de Artur Biolchi, um garoto gaúcho de 14 anos, que vive em Caxias do Sul \ RS e desde os cinco meses de idade é portador da Síndrome Werdnig Hoffmann, uma doença neuromuscular grave que comprometeu todos os seus músculos, com exceção do diafragma e os músculos oculares, os quais utiliza para se comunicar com as pessoas através do abrir e o fechar dos olhos, apertando as pálpebras lenta ou rapidamente em um jogo de códigos de uma linguagem própria.

Quem observa a foto de Artur rodeado pela equipe de enfermeiras com seu semblante cheio de vida, sem um único traço de revolta pela condição de se encontrar preso em um corpo que só dispõe de movimento nos músculos dos olhos, chega acreditar que ele não depende de ventilação mecânica e acompanhamento do serviço de enfermagem 24 horas.

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Minha surpresa maior foi saber que Artur tece Mandalas Rosa-dos-ventos com os olhos. Rosa Cappellaro Andreazza — enfermeira bem conhecida do menino —, após alguns anos aplicando e ensinando a técnica terapêutica da confecção de Mandalas, em uma visita juntamente outras colegas de profissão e sob o olhar atento da zelosa mãe — Márcia Feraboli Biolchi —, perguntou para Artur se o mesmo gostaria de aprender a tecê-las e ele com sua própria linguagem utilizando os olhos, entusiasmado respondeu várias vezes que sim.

A enfermeira foi conduzida pelos olhos de Artur como um instrumento, pois, o menino, escolheu as cores, o tamanho e muitas vezes ficou contrariado quando a enfermeira errava propositalmente um ou dois pontos ou pegava uma cor diferente da escolhida por ele, simplesmente para perceber sua reação. A concentração e o empenho do garoto sempre foram totais nas vezes em que ele e a enfermeira teceram Mandalas a duas mãos, a dois corações e a dois pares de olhos.

O garoto que tece Mandalas Rosa-dos-ventos com os olhos está estabelecido em um lar humilde governado e gerenciado pela dignidade de uma mulher, sua mãe, que devido ao amor pelo filho e aos cuidados especiais que envolvem Artur, não pode trabalhar fora, mas, desdobra-se confeccionando doces para o sustento da família, enquanto Artur passa sua lição silenciosa de que a vida é para ser vivida, apesar dos pesares.

O interessante dessa história é que o maior benefício desses encontros, em que teceram Mandalas, ficou para a enfermeira e suas colegas. Segundo a mesma, convivendo com Artur, testemunhando sua garra e força de vontade, apesar de sua gravíssima falta de movimento, a condição do paciente lhe fez rever sua vida, seus problemas, suas angústias, como também, olhar a vida por outro ângulo e lançar-se a outros desafios como o de estender seu projeto voluntário à várias instituições, incentivando pessoas, visto que, os olhos de Artur falaram ao seu coração.

O menino que tece Mandalas Rosa-dos-ventos com os olhos é um exemplo de que, por mais limitados que estejamos há sempre uma porta, uma forma de reagir e interagir com a vida e com as pessoas. O pequeno Artur nos dá uma aula a respeito de que não podemos nos isolar em nós mesmos, muito menos em nossas limitações.

Diante da história de Artur, o menino gaúcho que tece Mandalas Rosa-dos-ventos, podemos nos indagar: o que estou fazendo com o movimento de meu corpo e o movimento de minha vida? Bem, a resposta é pessoal e cabe a cada um de nós meditar sobre ela.


© Texto com Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

Imagens devidamente autorizadas por  Márcia Feraboli Biolchi e Rosa Capellaro Andrazza 

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