AS VULNERABILIDADES DE NOSSO MUNDO INTERIOR

Em Delfos na Grécia, existem as ruínas de um templo construído em honra a Apolo, o deus grego do sol, da beleza, da harmonia, da retidão e da perfeição. O aforismo “Conhece-te a ti mesmo” está inscrito logo na entrada do templo, numa clara alusão de que para alcançar a perfeição apolínea é preciso antes de tudo conhecer a si mesmo e a partir disso eliminar os vícios e as más inclinações avalizadas pelos instintos mais primitivos que ainda vicejam dentro de cada um de nós. É preciso, pois, buscar a perfeita integridade do homem de bem, evoluído, em paz com o mundo e consigo mesmo.

O processo do autoconhecimento perpassa por várias atitudes, entre elas destaca-se a necessidade da constante vigilância de nossos atos. Embora muitas vezes nos consideramos muito seguros, somos, na verdade muito frágeis e com muitos pontos fracos em nossa linha de defesa moral, psíquica e espiritual. Cabe ressaltar, que por mais forte e bem protegida seja nossa vida, basta um pequeno lapso, um pequeno descuido para que tenhamos projetos e sonhos destruídos de dentro para fora como foi a mítica cidade de Troia.

cavalo-de-troia

Para contextualizar é bom saber que após dez anos sitiada, Troia foi tomada pelos gregos através de um ardil de Ulisses Odisseu, rei de Itaca, pai de Telêmaco e esposo da virtuosa Penélope. Segundo o poeta Homero, Ulisses convenceu os demais reis gregos a destruírem alguns navios para construírem um enorme cavalo de madeira e deixá-lo como forma de oferenda ao deus Poseidon, divindade grega do mar em troca de um bom retorno para casa.

Certo dia ao amanhecer os troianos avistaram na praia apenas um enorme cavalo de madeira e um soldado grego enterrado até o pescoço deixado para trás para entregar o presente à cidade. Como Poseidon era o deus protetor de Troia e amava cavalos, o povo juntamente com o rei Príamo decidiu levar o cavalo de madeira para o interior das muralhas da cidade.

Durante a madrugada após as comemorações do fim da longa guerra, enquanto a maioria dos habitantes dormia embriagada, uma companhia de soldados lideradas pelo rei Ulisses saiu de dentro do cavalo de madeira, abriu os portões da cidade e sinalizou com tochas para que os navios gregos se aproximassem e tomassem de vez a cidade.

Assim como a antiga cidade de Troia o nosso coração e nossa mente podem ser seguros e relativamente impenetráveis, mas basta um lapso de desatenção para sermos assaltados e tomados de dentro para fora. Isso ocorre quando os olhos se deixam encantar pelas aparências, os ouvidos pelos belos discursos e a mente pelas falsas arguições.

A máxima cristã “vigiai e orai” nos remete ao ofício dos vigias das torres dos antigos castelos, que dia e noite, velavam e tomavam conta de algo ou de alguém, precavendo antecipadamente uma invasão. Em nossa vida, no cotidiano de nossas relações vigiar significa observar atentamente para se precaver de maiores aborrecimentos e perdas, como a paz e a tranquilidade.

As precauções se fazem necessárias porque são indispensáveis para que possamos manter o equilíbrio e principalmente a lucidez, para que assim, possamos perceber além dos véus que cobrem a dura realidade das coisas que parecem perfeitas por isso, tentadoras, quando não estamos precavidos, tanto contra o mundo, quanto contra nós mesmos.

A atenção constante não diz respeito apenas ao mundo externo, mas também ao nosso interior, uma vez que somos um universo desconhecido, entretanto, como nos conhecer sem vigiar atentamente nossos comportamentos e atitudes diante do outro e do mundo? Vigiar a nós mesmos está para a nossa paz de espirito, como está a primeira linha de defesa de um exército em uma frente de combate, isto é, proteger o núcleo, o posto de comando, no nosso caso, a mente e o coração.


©Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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