A nossa vida sob estado de cerco

Em tempo algum, o homem moderno, tanto o que possui determinado poder, quanto o comum, estiveram cercados e aprisionados por aquilo que julgam possuir e controlar. A tecnologia raptou e aprisionou os coadjuvantes da vida moderna, que iludido julgam-se protagonistas consumidores, quando, na verdade, são consumidos pelo próprio consumo, e, tem dilapidados o tempo e a saúde, ludibriados de que fazem o contrário.

Foto de Josh Kahen no Unsplash.jpg
Foto de Josh Kahen no Unsplash

Em tempos não muito distantes apenas os ricos e poderosos viviam aprisionados e servos do próprio domínio e da própria posse, iludidos de que possuíam liberdade, enquanto viviam cercados de seguranças e residindo em mansões fortificadas. Tinham todas essas precauções devidas à incerteza e a insegurança que nutrem a vida de quem vive sob a tirania do poder de qualquer espécie, pois, carregam consigo a certeza que a dita superioridade é temporária, tanto, que gosta de mudar de servos o tempo todo.

Há mais de 500 anos a prensa de Gutemberg, proporcionou uma determinada facilidade em disseminar ideias através da escrita. No entanto, com o passar do tempo além dos livros surgiram os jornais com o objetivo de informar, com a falsa perspectiva de que, quem obtém informação detém poder. Os jornais que iniciaram sendo mensais e semanais passam a ser diários agendando os assuntos a serem debatidos pela sociedade, ampliou-se assim, um novo tipo de escravidão e dependência silenciosa, ou seja, alimentar a curiosidade, jogo do ego desejando ser o primeiro a saber das novidades, sem perceber a manipulação da verdade que ocorria e ocorre em benefícios de alguns e detrimento de outros.

No alvorecer do século XX, surge o rádio e com ele a notícia vai ao encontro do ouvinte, ao contrário do leitor que tem de ir até à banca comprar o jornal ou pegá-lo na caixa de correio. Com a transmissão ao vivo da extensão da voz humana a informação aparece a qualquer momento em edições extraordinárias. A partir de então, não somos mais seduzidos a ir de encontro aos dominadores, eles passam a entrar nos lares com nossa total anuência, escravizando o nosso tempo e ampliando desejos pelo supérfluo, bem como necessidades inexistentes.

Com a televisão no fim da década de 1950, a escravidão silenciosa e voluntária fica mais sedutora e atraente com a imagem e voz fechando ainda mais o cerco sobre os seus, agora telespectadores. A armadilha sedutora se apresenta como uma forma de status, isto é, possuir um televisor demonstrava poder aquisitivo para tal, no entanto, quem passa a exercer determinado poder nas casas é a própria televisão, que transforma sua plateia em seres totalmente passivos e apáticos, mergulhados na ilusão de que são mais bem informados e espertos.

neonbrand-263889-unsplash.jpg

Com a internet na década de 1990 e as mídias sociais no advento do XXI, amplia-se ainda mais o cerco sobre nós, visto que, a tecnologia nos limitou a viver na solidão mesmo acompanhados, ou seja, nos arrastou aos torvelinhos do narcisismo exacerbado e alienado com a falsa promessa de liberdade, quando, na verdade, nos roubou o que restava dela. Como dependentes químicos, estamos viciados e não suportamos a abstinência do que a tecnologia nos possibilita, enquanto que, o tempo para cuidar de nós mesmos está cada vez mais escasso, visto que, ludibriados estamos trabalhando mais para adquirir tudo aquilo, que verdadeiramente não precisamos.

Evoluímos muito tecnologicamente, mas nos tornamos escravos da tecnologia e de quem a administra, visto que, estamos vivendo enclausurados em verdadeiras fortalezas, com grades, cadeados, cães de guarda e em condomínios com vigias 24 horas, mas convencidos de estarmos seguros, quando, na verdade, somos prisioneiros de uma demanda de controle que gesta nossa própria insegurança a fim de nos manter sob um torpor, um embotamento social que não atrapalhe os passos de quem realmente manda e se beneficia de um todo, distribuindo com uma mão a falsa liberdade, enquanto que com a outra, saqueia nossa vocação libertária.


© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.