As nossas máscaras

Evitamos muito falar sobre nossas máscaras, no entanto, quando se fala nelas é comum as pessoas imaginarem que se trata de hipocrisia e falsidade, quando, na verdade, elas fazem parte de algumas máscaras conscientes, sendo que, a maioria é inconsciente, isto é, nós usamos sem perceber.

Nossas máscaras, não são nada mais nada menos, do que defesas do nosso próprio ego, mecanismos que usamos para que as pessoas não percebam quem realmente somos, os nossos defeitos, as nossas fraquezas e os nossos medos, como também, as usamos para nos proteger de nós mesmos.

Na natureza há um fenômeno chamado mimetismo em que animais mudam de forma para se proteger de seus predadores, como é o caso de alguns tipos de rãs e sapos que inspirando o ar, aumentam de tamanho para enganar alguns predadores como cobras, que ao verem as presas multiplicarem o tamanho desistem da caça ao perceberem que elas não irão passar por suas gargantas. Existem outros animais que mudam de cor para enganar suas presas, como é o caso do camaleão.

O ego também trabalha as nossas máscaras para nos proteger de nós mesmos e do outro, aliás, para ele se proteger nos ludibriando com autoengano de que nós estamos nos protegendo do mundo, visto que, nós vivemos na ilusão de que controlamos o ego, quando, na verdade, somos servos dele, ou seja, é ele que nos controla.

Nossas máscaras elas estão aí para ser eliminadas, mas como que vamos eliminá-las, se nos ajudam a conviver com o outro, seja na família, no ambiente de trabalho, na escola e em outras repartições da nossa sociedade? A eliminação tem de se dar aos poucos, visto que, não pode ocorrer de uma só vez, porque imagine se nós pudéssemos nos ver como realmente somos, com certeza seria desastroso.

Nos reconhecermos como realmente somos sem um preparo psicológico, sem uma maturidade espiritual e psíquica para encararmos certas verdades, nos faria mais mal do que bem. Imagine também vermos nosso melhor amigo como ele realmente é, os nossos familiares como realmente são, totalmente nus. Será que conseguiríamos conviver com eles e eles conosco? É claro que não.

As nossas máscaras, nesse grau de evolução que estamos se fazem necessárias até determinado ponto, porque a partir do momento em que tiramos os nossos olhos do exterior e do outro e os colocamos para dentro de nós mesmos, para nos conhecer e explorar nosso interior, nós vamos encontrar essas máscaras e o que elas estão camuflando, o que elas estão escondendo. E aí está oportunidade de melhorarmos a nós mesmos e nos tornando mais fortes para darmos o próximo passo.

 

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Olhando para o nosso interior e eliminando nossas máscaras através de atitudes corretas, bem como, aceitar mudar aquilo que pode e deve ser mudado, vamos aos poucos construindo nossa evolução espiritual.

Robert Fisher, um escritor roteirista americano, escreveu um livro chamado — O Cavaleiro Preso na Armadura —, o autor narra que havia um cavaleiro que não tirava sua armadura porque, na verdade, ele era apaixonado pelo brilho reluzente dela. Seu filho não o conhecia, sua esposa há muito não via seu rosto e quando o filho pedia para ele tirar o elmo e sua esposa também reforçava esse pedido, o cavaleiro falava que não podia tirá-lo, porque ele deveria estar preparado 24 horas para defender o rei e o reinado a que ele pertencia.

Passaram-se alguns anos e a mulher do cavaleiro juntamente com seu filho o abandonaram, porque não aguentaram mais aquela situação do cavaleiro não querer tirar a sua armadura. Desesperado por ter perdido tudo aquilo, que até então ele não havia percebido que lhe era valioso, ele foi à procura de um ferreiro, que apesar de muitos golpes, não conseguiu remover a armadura de seu corpo.

Certo dia, quase imóvel, pois, a armadura estava enferrujando e impossibilitando seus movimentos, ele ouviu de um amigo que só uma pessoa podia ajudá-lo, o mítico mágico Merlim. O cavaleiro por muitos dias se locomovendo com dificuldades vagou pelas florestas até encontrar o mago.

Com o passar dos dias e com seu corpo totalmente imóvel, ouviu do mágico que só ele poderia arrancar, tirar, descolar do seu corpo aquela armadura. Isso tudo só aconteceria a partir do momento em que ele se reconhecesse como ele realmente era, e a partir do momento que ele começasse a trabalhar todos os seus defeitos, somente assim, aquela armadura se descolaria de sua pele.

A fábula chega no final, no qual o cavaleiro consegue se livrar de sua armadura depois de muito sacrifício e muita dor, porque dói muito nos reconhecer como realmente somos. O encontro conosco mesmos nos assusta, porque é totalmente diferente daquela idealização que fazemos de nós mesmos e nós não somos nada daquilo que imaginamos ser.

Ao se livrar da armadura, o cavaleiro percebeu que ela não o deixava perceber tudo aquilo que ele cultivava de ruim dentro de si, a armadura o protegia de seus medos, escondia seus defeitos, escondia tudo aquilo que ele não queria que as outras pessoas percebessem. Ele se sentia seguro na armadura, mas a armadura em determinado ponto de sua vida passou a fazer parte do corpo dele.

O cavaleiro usou tanto sua armadura, que ela se apegou ao seu corpo. Com o passar do tempo o ferro enferrujou e impediu seus movimentos, ou seja, a armadura o dominou por completo. Assim nós ficamos a partir do momento em que vamos usando as nossas máscaras sem repensá-las e analisá-las, para que possamos tirá-las uma a uma e nos melhorarmos interiormente, como seres humanos e cidadãos do mundo.

Muitas pessoas dizem não possuir máscaras, se vêm como seres bondosos, carinhosos, caridosos. Geralmente essas pessoas vestem uma capa de luz, visto que, não cumprimentam o porteiro do prédio ou do condomínio em que moram, cruzam indiferentes por um animal abandonado e por seres humanos que estejam mergulhados na mendicância, é aí que devemos nos perguntar: onde estão as máscaras dessas pessoas? Será que elas são tão perfeitas quanto imaginam ser?

Temos por dever tomar consciência de nossas máscaras, para percebermos que não somos, assim, tão perfeitos como imaginamos. Ao admitirmos possuir máscaras encontramos o caminho da redenção, e esse caminho nos obriga a nos livramos pouco a pouco de todas elas, no entanto, nossas máscaras são tantas, que uma única vida não basta para eliminarmos todas elas, é por isso, que nos é dado tantas oportunidades, e o mais importante disso é não desperdiçarmos nenhuma, só assim, vamos nos tornar melhores para nós mesmos e para o mundo.


© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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