Viver como um passarinho

Certo dia ao passear com meus cães em um parque, sentei em um banco que havia sentado um idoso há poucos minutos. Todo dia esse senhor calvo de passos lentos vem ao parque acompanhado de sua bengala, nas mãos traz um pequeno pacote com milho moído e farelos que ele dá aos pássaros. Comecei observar os passarinhos que chegavam ali para comer e percebi que eles ao sentirem uma pedra no bico, logo a descartavam. Saltitando comiam o suficiente para alimentá-los, saciados voavam para outra direção deixando para trás a comida excedente.

Em nossa vida, muitas vezes deveríamos imitar os passarinhos, porque diferentemente deles, nós nunca estamos satisfeitos. Vamos pescar e ao invés de sacrificar apenas um peixe para nos alimentar, sacrificamos vários guardando-os congelados. Ao colher algumas frutas, apanhamos várias, mesmo que elas com o tempo estraguem em nossa geladeira. Nos comportamos assim, porque vivemos sob a tirania do excesso e do supérfluo.

Observando os pássaros, pude perceber eles comem apenas o suficiente, e se assim fizéssemos comendo apenas com o essencial para manter nossa vida, certamente o mundo seria bem melhor, com menos fome e menos miséria. Nos falta a humildade dos passarinhos que deixam para trás a alimentação excedente para que outros como eles possam se alimentar com dignidade.

Os pássaros escolhem muito bem o que colocam para o interior do corpo, eles selecionam o próprio alimento, tanto que há um ditado que diz que o fruto que estiver bicado por passarinhos não apresenta perigo aos humanos. Se prestássemos mais atenção nesses pequenos seres e aprendêssemos com eles, muitas doenças oriundas dos excessos seriam evitadas.

Em nossa vida, tanto fisicamente, quanto psicologicamente, não procuramos viver em equilíbrio. Não fazemos uma alimentação de acordo com o nosso metabolismo e na esfera das emoções, absorvemos tudo aquilo que não nos fará bem, ou seja, não selecionamos a entrada de aborrecimentos, de mágoas e raiva, sentimentos descartados por outras pessoas machucadas, que ao sentirem-se transbordando essas emoções ruins, procuram desesperadamente alguém para descarregar um pouco de todo mal que carregam no interior delas mesmas.

Movidos pelo nosso ego, com a desculpa de autopreservação e defesa, sem perceber vamos absorvendo todo o mal que devido ao excesso as pessoas em conflito com a vida procuram descartar em nós, como se fôssemos uma lata de lixo psicológico. Para evitar absorver isso tudo e os aborrecimentos consequentes, temos por obrigação rever os níveis de nosso orgulho e de nossa vaidade, pois, sem uma autocrítica permaneceremos no autoengano, que faz nos considerarmos melhores e maiores do que os outro.

Mario Quintana, um excepcional poeta gaúcho, quando foi indicado para integrar a Academia Brasileira de Letras, foi muito criticado e barrados por vários escritores. O poeta dos sonhos morreu e não conseguiu o seu intendo de pertencer a mais respeitada Instituição da Literatura Brasileira. Quando ele percebeu quem eram os seus colegas escritores, que o criticam e eram contra sua entrada na ABL, Quintana escreveu um pequeno poema chamado de Poeminha do Contra, que diz o seguinte: Todos esses que aí estão \ Atravancando meu caminho, \ Eles passarão… \ Eu passarinho!

Mario Quintana se perpetua na memória de todas as pessoas que ouvem falar dele, porque pessoas que vivem como passarinhos, se alimentam da humildade e da gratidão pela vida. Todos os escritores que trataram de boicotar a entrada de Quintana na Academia Brasileira de Letras, quase ninguém lembra, nem sabe quem são e o que escreveram.

Mário Quintana é Mário Quintana, porque ele vivia como um passarinho, se alimentava como um passarinho, distribuía sua sabedoria como um passarinho distribui longe as sementes do alimento que ele consome, distribuindo assim, a vida. O poeta da simplicidade realmente foi um passarinho, distribuindo amor, distribuindo sabedoria através de seus versos.

Se formos observar a vida com mais atenção, certamente perceberemos que temos muita coisa para mudar. Os passarinhos que voam livres pela natureza, fazendo uso dela sem exageros, vivendo em perfeita harmonia com tudo aquilo que ela lhes proporciona para saciar suas necessidades e cumprir os seus desígnios diante da vida, podem, sim, nos inspirar a viver melhor.

Ouça o texto em áudio aqui: 


© Todos os Direitos Reservados ao Escritor Davi Roballo

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